bigode

Lúcio seria incapaz de reproduzir a conversa que teve com o Candidato. Para ele, foi como ouvir um bigode falante. Uma espécie de Gato de Alice menos cativante. O que escapava daquele bigode eram mentiras em estado bruto, mentiras que aguardavam um embrulho decente. Embrulho que ele, marqueteiro renomado, teria que providenciar  – como um grande laço rosa emoldurador de bobagens.

A única nota dissonante foi quando o Candidato falou em Akira. Ah, o Akira! Sim, o repórter que estava revirando a vida do Candidato.  Akira era alguém que Lúcio conhecia muito bem, que era amigo de faculdade, que era talentoso e que se pegasse o fio da meada destruiria o Candidato com uma matéria de jornal.

O Candidato estava acuado, sentindo-se perseguido pelo repórter. De fato, o Candidato estava tão acostumado com um modus operandi corrupto que chegava a acreditar que aquilo era normal ou natural e que, portanto, estava sendo injustiçado. Não estava. Era mesmo um filho da puta.

O Candidato sugeriu uma saída pouco republicana. Acidentes acontecem todos os dias. Corpos boiando no Rio Tietê aparecem com certa frequência. Lúcio ficou chocado com aquilo que sequer foi uma insinuação. Foi uma proposta. Lúcio foi rápido e pediu uns dias – disse que ele mesmo iria conversar com Akira, que resolveria de um jeito mais prático e seguro.

Lúcio se achava uma pessoa boa.

O problema é que mesmo depois que o bigode foi embora, o gosto ruim permaneceu na boca de Lúcio. Ele pegou o carro e dirigiu para casa sem prestar atenção no noticiário sobre o cometa Tom Brady. Também não atendeu duas ligações do Orelha. Nem deu tchau para a secretária/possível amante.

Ao chegar em casa, Fabiana estava pronta. Bonita. Ricardinho, ainda um pouco desleixado, continuava chorando por conta do gato sumido. Lúcio mentiu – dizendo que já havia acionado a vizinhança para encontrar o gato.

Saíram de casa já atrasados. Ricardinho até que gostava de ir à casa da vó. Comia bem, era mimado e achava o tio “irado”. Fabiana reverenciava os pais – principalmente o pai, Alencar. Com Frederica, diga-se de passagem, a relação também era de amor, mas era um amor mais contido e sem grandes demonstrações de carinho. Lúcio, bem, Lúcio não tinha cabeça para aquele jantar em família. A ameça do Candidato, daquele bigode falante, não ia deixá-lo em paz. Akira estava correndo perigo – e Lúcio não poderia controlar o afã do Candidato por muito tempo. Além disso tinha a cunhada, a Joana. O relacionamento dos dois ainda colocaria tudo a perder. Bom, não fosse por Ricardinho não haveria problemas em por tudo a perder.

Lúcio sempre se perdia quando ia para a casa de Frederica. Mesmo colocando o endereço no Waze, mesmo assim ele costumava dar voltas sem sentido antes de chegar ao local. Era como se o endereço não existisse – ou que pelo menos não existisse durante um período.

Ao chegar na frente do casarão, Lúcio notou o desleixo do jardim. Alguém poderia se machucar naqueles galhos retorcidos, naqueles pequenos buracos e desníveis no terreno. Ia comentar com Fabiana o absurdo daquilo quando foi surpreendido por um homem mascarado que atirava em seu peito.

Morreu. Não.  Paintball.

Junior ria de se rachar. Ricardinho também riu ao ver o pai com a camisa vermelha de tinta. Foi a primeira risada que o filho de Lúcio dava em muitos dias.

Lúcio deixou quieto. Não sorriu. Mas também não fez drama.  Ver Ricardinho se divertindo já era alguma coisa – mesmo se fosse às custas de uma brincadeira estúpida de um tio retardado.

A família entrou na casa. Frederica reclamou com Junior e foi providenciar uma nova camiseta para Lúcio. Alencar, que estava dormindo no sofá, despertou assustado – dizendo que tinha tido um sonho estranho. Joana não se deu ao trabalho de interromper sua sequência de abdominais.

Lúcio sentiu-se estranho. Achou que ia desmaiar. Aquele cuco na parede era algo que sempre fazia Lúcio suar frio. Vai ver era algum trauma de infância ou de outra vida, vai ver era só uma coincidência boba. Toda vez que o relógio tocava e a mola frouxa aparecia (no lugar do cuco) era um arrepio de morte.

Foram todos para a cozinha. Antes do jantar, uma oração estranha. Lúcio, Fabiana e Ricardinho não participaram. Lúcio ia perguntar do que se tratava, mas o som de batidas (fortes) na porta quebraram a sequência natural dos fatos.

Do lado de fora da casa, um homem de dentes extremamente brancos e um cachorro.

A família não estava esperando ninguém.

Continua.