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Alencar abriu os olhos. Pazuzu abriu as asas. Vórtice. E, a partir de agora, quem vai contar a história de Lúcio sou eu.

Lúcio acordou com o choro do filho. Olhou o relógio do celular e soube que aquela era mesmo a hora de se levantar. Foi se arrastando até a cozinha. Viu Fabiana abraçando Ricardinho com carinho. O gato tinha sumido. Fugiu pela janela ou algo assim.

Lúcio quis dizer ‘eu compro outro’. Deteve-se. Embora acreditasse piamente na eficácia de um ‘compro outro’, teve pudores. Sabia que sua mulher iria se aborrecer e o menino choraria mais e mais.

Prometeu que iria procurar. Prometeu que iria mobilizar amigos e vizinhos na busca pelo Todinho, o gato.

Ele estava atrasado. Tinha reunião com o Candidato. A eleição iria começar e os detalhes da campanha ainda precisavam ser debatidos, definidos e postos em prática. Sabia-se um gênio. Cercado por colaboradores medíocres e um Candidato de caráter duvidoso. ‘Pagando bem que mal tem’, pensou.

Trancou-se no banheiro. Escondia um maço de cigarros atrás de uma parede de sabonetes, no fundo do armarinho. Sentou-se no vaso e acendeu o cigarro. Queria um tempo para pensar. Pensar que precisava fumar escondido da mulher. Pensar que o amor acaba, mas que, não raro, se empurra com a barriga até que uma ladeira daquelas bem inclinadas faça o resto do trabalho. Será que algum dia houve amor? Será que ele era escravo das circunstâncias, de uma bobagem da adolescência? Bobagem? Às vezes, Lúcio era bastante condescendente com aquilo que muitos chamariam de crime. Será que ele ainda não havia se livrado da culpa daquela infeliz noite de verão? A noite que ele passou em um acampamento escolar de fim de ano?

Ricardinho era uma questão também. Criança muito sensível. Chorava pelo gatinho feito uma menininha. Talvez fosse o caso de levá-lo para um domingo de futebol com Orelha e Durval. No vaso, repetia para ele mesmo que não era preconceituoso, mas que apenas estava tentando proteger o filho. Ricardinho sofreria muito se crescesse assim tão afeminado.

Jogou o cigarro dentro do vaso e puxou a descarga. Entrou no banho e se masturbou pensando na cunhada, a Joana.

Antes de sair de casa, ouviu de Fabiana que eles tinham um jantar na casa de Frederica. Ele resmungou. Não queria passar uma noite naquela casa estranha – tendo que aturar o cunhado esquisito, o sogro hiperativo e escondendo o tesão da cunhada atrevida. A sogra até que não era um problema. Frederica era a mais normal daquela família.

Mas ele não tinha opção. Prometeu que chegaria cedo e saiu correndo de casa. No carro, no primeiro farol, pensou em como o seu daltonismo era uma espécie de bênção. Tinha preguiça desse mundo colorido que ele mesmo, como publicitário premiado, tinha ajudado a criar. Gostava da sobriedade dos tons menos gritantes. Não precisava de todas as cores para ser feliz. Não que fosse feliz. Não era. Mas cortar o supérfluo faria bem. O mundo seria melhor em branco e preto.

Então, ligou o rádio para se distrair. Não se falava em outra coisa. Só se falava sobre o tal cometa que segue firme em direção ao nosso planeta. Parece que vai passar raspando. Lúcio não se preocupa. Tem uma confiança absoluta nos americanos e seus esquemas mirabolantes. Acha mesmo que se houver algum risco, os Estados Unidos vão dar um jeito de desviar ou destruir o cometa que eles mesmos batizaram de Tom Brady – evitando assim o definitivo Touchdown.

Chegou na agência. Soube pela Carla, a secretária, que o Candidato já estava lá. Carla não disfarçava a paixão pelo chefe. Lúcio sabia. Pressentia. Achava graça. Talvez um dia levasse a secretária para um almoço mais demorado.

Antes de entrar na sala onde o Candidato estava, Lúcio passou por Pacheco e João Gordão. Ralhou com os dois. Onde estava o japonês da TI que ele queria para figuração da propaganda eleitoral? Cadê? Era fundamental ter um japonês com cara de TI naquele vídeo de campanha! Até o fim da eleição teria que demitir um deles. Os custos de uma corrida eleitoral eram muito altos e ele não poderia manter dois incompetentes na equipe. Azar deles. Escolheria na moedinha, provavelmente.

Entrou na sala de reunião e viu o Candidato sentado na ponta da mesa. Deu bom dia. Sentou-se também. E pensou em como aquele bigode impertinente, combinado com uma careca lustrosa, poderia ser tão inconveniente. Na primeira oportunidade, pediria para o Candidato dar um jeito no visual. Pelo menos, quem sabe, raspar o bigode.

Continua.