hospital1

O Natal ainda está longe. Eu também não sou nenhum Charles Dickens. Mas, como aquele velho sovina do conto inglês, recebi a visita de alguns fantasmas. Mais de três. De fato, não sei ainda o que era fantasma, o que era real ou o que era efeito dos remédios que me injetaram. Cadê o Ricardinho?
*
Quando abri o olho estava em um quarto de hospital. Paredes brancas. Uma televisão fora do ar. A luz que entrava pela persiana… Um quadro do Hopper, pensei. Isso, sou um personagem de um quadro de Edward Hopper.
*
Quem apareceu primeiro foi o João Gordão. Taciturno, não queria estar aqui. Foi seco. Agradeceu a ajuda e falou que tudo estava acertado. Tentei dizer: acertado o quê? Não consegui. Me repassou uma mensagem do Candidato – que me desejava um pronto restabelecimento. O meu emprego estaria me esperando tão logo eu pudesse sair daquele hospital.
– Isaías cuidou de tudo como um profissional – falou o gordão.
Me agitei
*
Depois foi a Carla, minha ex. Tinha uma expressão de dó. Preferia ter morrido ao ver isso.
– O que você está fazendo da sua vida, Lúcio?
Não respondi.
– Você é uma pessoa boa, mas está perdido.
Não respondi.
– Você precisa superar… superar o que a gente viveu. Eu toquei minha vida… E você? Dirigindo bêbado, colocando a vida de um moleque de vinte anos em risco.
Eu não estava dirigindo.
*
Acho que dormi um pouco. Quando abri os olhos, Lino estava ao meu lado. Molhado. Pingando.
– Me jogaram no rio. Como os outros, me jogaram no rio. Sorte saber nadar. Se tem uma coisa que um homem precisa aprender na vida é nadar.
Quis abraça-lo.
– Eu tenho uma má notícia: seu cachorro. Não se tem notícia do bicho. Parece que desapareceu.
Resmunguei. Tentei dizer que Sazerac tinha virado um gato. Quis dar uma nota de R$ 10 pra ele. Mas Lino sumiu.
*
Akira entrou fazendo festa. Disse que quando eu me recuperasse a gente iria cair na gandaia, que ia me apresentar umas amigas safadas. Falou também que estava “curtindo esse lance de política”.
– Ah, tô pegando uma coroa aí, mas depois te conto.
(…)
*
Devo ter dormindo depois que Akira saiu. Acordei com o barulho da televisão. Mais uma matéria sobre o LeBron. Segundo especialistas havia cerca de 40% de probabilidade do cometa nos acertar. O que aconteceria depois? Uma das hipóteses é de que a gente, provavelmente, repetiria os dinossauros.
*
Entrou um Pokémon no meu quarto.
Pelo menos foi o que o Junior disse, sem tirar os olhos do celular.
Pediu para que eu não me mexesse – é claro que eu não me mexeria.
Um Pokémon raro estava bem no meio da minha testa.
Era um Mewtwo – um Pokémon que simplesmente ainda não tinha sido visto no jogo, em nenhuma parte do mundo.
Ele precisou gastar 5 pokebolas na minha testa.
Pegou o Pokémon e gritou o nome da mãe.
*
Silêncio. Acho que era madrugada.
Ouço um ronco. Vem do canto do quarto. Sentado em uma cadeira está o velho Alencar.
Ele continua dormindo.
*

Duas visitas de uma vez. Dois meninos de 13, 14 anos. Acho que Orelha e Durval. Eles ficaram parados na frente da minha cama. Não mudaram nada. Os mesmos meninos do tempo do colégio. Os meninos que estavam comigo naquele passeio de final de ano. Há mais de 20 anos…
– Ninguém viu a gente, né ? – Perguntou o menino Orelha.
– Não – respondeu seco o menino Durval.
– E o Lúcio? – voltou a perguntar Orelha.
Os dois riam.
– Acho que a Fabiana gamou – comentou Durval.
*

O bigode de Isaías encheu o quarto. Odeio tanto o bigode dele que até esqueço que ele é careca. Trouxe uns livros de colorir. Colocou na cabeceira ao lado da minha cama. Trouxe lápis de cor também. Contou que tinha salvado minha vida, mas que fez isso de coração.
– Fui o primeiro a chegar na cena do acidente. Cheguei antes da polícia. Troquei você o garoto de lugar. Te coloquei no volante. Acho que assim você terá menos problemas. Eu e o seu chefe estamos nos entendendo muitíssimo bem. Acho que vamos fechar umas parcerias…
Eu quis saber do Ricardinho, mas não consegui dizer nada.
Isaías foi embora.
*
Dormi de novo e fui acordado por um barulho que vinha da janela. Consegui me virar. Ainda sentia algumas dores. Na janela, um vulto. Um anjo. Ou um pássaro. Não sei. Apenas me observava. Achei que ia morrer. Ou já estivesse morto. Não sei o motivo, mas lembrei da família de Frederica rezando ao redor da mesa de jantar.
Pazuzu.
*
Continuei sonhando.
Tinha uma mola saltando de um relógio cuco.
Alguém pode me dizer o que aconteceu com o Ricardinho?
*
De repente, Joana estava com as mãos na minha virilha.
Tateou até encontrar o que queria.
Foi rápida.
Quase me machucou.
Acordei molhado.
*
Frederica esta em pé, ao lado da minha cama. Carinhosa, disse que ficaria tudo bem, que logo eu estaria completamente restabelecido.
– Fabiana está mais calma. Está te esperando em casa. Vamos pra casa ainda hoje.
Casa? Tentei gritar.
Não consegui.
Ficou tudo escuro de novo.
*

Casa…

 

Continua

Trilha sonora do episódio:

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