As roupas que não servem, as contas que já foram pagas, os panfletos, os folhetos, cardápios de pizzaria e tristes cartas de amor.

A poeira da quina, o pó que cobre o romance russo, o osso que o cachorro escondeu, cartelas de um comprimido vencido e absurdas cartas de amor.

Frutas de outra estação, minúsculos farelos de pão, cacos de um copo que quebrei na porta, aliás, a chave de uma porta pela qual eu nunca mais passei e esdrúxulas cartas de amor.

Moedas no vão do sofá da sala, clips retorcidos, adaptadores, guias de viagem desatualizados, pontas esquecidas e suspeitas cartas de amor.

Revistinhas de sacanagem, chave de fenda, parafusos tortos, barata morta, boletins de ocorrência, fita adesiva sem cola, vídeo cassete de quatro cabeças e ordinárias cartas de amor.

Dois polegares, um indicador, três orelhas ainda sangrando, uma cabeça inteira,  uma cabeça rachada, um vidro cheio de globos oculares,  um fémur inteiro, um pedaço de tíbia, um coração apodrecendo e, como dizia Fernando Pessoa, ridículas cartas de amor.