Com o que sonham as crianças guardadas em um depósito no Texas?

Os barulhos que uma casa tem de manhã. Um despertador, os flop, flop dos chinelos, a descarga, a escova de dentes dos adultos, a cafeteira, o radinho de pilha na cozinha e um aviso de que já é hora de acordar.

A campainha é ardida e intermitente. Os menores acordam chorando. Do alto falante, uma voz fantasiada de suave diz um bom dia enganador. Todos em pé. Fila indiana para ir ao banheiro. Dentes escovados na marra. Cheiro de produto de limpeza disfarçando o odor de merda.

O uniforme separado. É chato tomar banho, mas depois de entrar o mais difícil é sair. A mãe ajuda com o uniforme. Primeiro levanta um braço. Depois, levanta o outro. O cabelo sendo penteado como quem se prepara para aparecer em uma fotografia dos anos 50. O vento da rua vai desmanchar. Que bom.

É um vestiário. Chuveiro coletivo. A água é gelada e o shampoo tem o mesmo cheiro daquele produto de limpeza que disfarça a merda. Um mulher usa uma escova dura para alisar os cabelos de quem sai do banho. Tem um uniforme cinza que vai sendo colocado pela cabeça dos meninos e desmanchando o trabalho da mulher da escova.

A mãe passando a manteiga no pão quentinho. Um copo de suco de laranja. A lancheira preparada com maçã, o mesmo suco de laranja e um lanche de presunto e queijo. O ônibus da escola está chegando.

Todos em fila indiana. Um saco marrom. Deve caber uns 200 pães lá dentro. Os pães já estão abertos. Um balde de manteiga. Um baldão. O homem passa uma faca no balde de manteiga e passa no pão. Entrega para a criança – que anda mais um pouquinho e ganha um copa de plástico com suco de laranja. Mesas coletivas.

No ônibus da escola, senta-se do lado da menina mais bonita. Sente vergonha. Não é legal sentar ao lado de uma menina. Mas, ao mesmo tempo, não quer trocar com ninguém. Ela está distraída olhando o celular. E o menino pensa que talvez as meninas não sejam assim tao chatas.

Senta ao lado de uma menina na mesa do refeitório. A garota chorou a noite inteira. Não quer comer. De repente, a menina bate com a cabeça na mesa. Abre um corte na testa dela. Os seguranças chegam correndo. A menina bate com a cabeça na mesa outra vez e diz um nome de mulher. Deve ser o nome da mãe.

Na aula, a professora de inglês ensina.

No deposito, ninguém entende uma palavra daquela língua enrolada.

Hora do recreio, o barulho das crianças correndo. O choro de quem arranhou o joelho.

Hora do banho de sol, o barulho das crianças correndo. O choro de quem arranhou o joelho e está procurando a mãe.

Mais tarde, em casa, assiste na televisão um homem laranja rodeado de crianças. Ele fala aquela língua que se ensina na escola – mas o que chama sua atenção é a cara assustada das crianças.

Mais tarde, no depósito, conhecem um homem laranja. São obrigadas a rodeá-lo como se fosse um papai noel de shopping. Ele tem aquele cheiro do produto de limpeza que usam para disfarçar o cheiro de merda.

Beijos de boa noite.

O sinal toca. Hora de voltas pra jaula.

A criança sonha.

A criança sonha.