Foto: Clube do Fusca de Blumenau

Foto: Clube do Fusca de Blumenau

Ella é jovem e tem apenas 23 anos. Está casada há 7. E espera seu segundo bebê.
Ella está de 9 meses. E o primeiro filho é um menino de um pouco mais de um ano.

É sábado a tarde e Ella sente suaves ‘cólicas’, coisa que normalmente uma grávida de 9 meses não sentiria. E se preocupa, então, decide ir ao hospital com seu marido.
Elles moram distante do hospital e precisam pegar ônibus e metrô, pois não possuem carro.

Chegando no hospital Ella logo é examinada e o médico a tranquiliza: “Seu bebê vai nasce daqui a 15 dias”.

Barrigão de 9 meses. Metrô. Ônibus e casa.

Com o final da gravidez, Ella sempre demora um pouco mais pra dormir. E enquanto o sono não vem, assiste TV ao lado do marido.
São quase duas da manhã. Ella sente leves contrações, levanta-se da cama e sua bolsa rompe. Ella vê o medo nos olhos dElle, mas mantém a calma e vai se trocar. Enquanto Elle corre para pegar a chave do carro do vizinho, que também é seu cunhado.

Elle Volta. Ella já está pronta com a bolsa de maternidade no ombro. E pede para Elle pegar o filho mais velho, que está dormindo no berço e assim levá-lo a casa de sua mãe, antes de irem para a maternidade.

No Fusca (0km, bege e de estofamento de veludo bege) Elle dirige até a casa da sogra. Deixam o menino com a mãe dElla e seguem ‘voando’, para o outro lado da cidade.

Durante o caminho, ainda desesperado, Elle corre muito. Quase que irresponsavelmente pelas ruas de São Paulo. Enquanto Ella disfarça as dores sentidas, pelos pequenos pés da criança em sua barriga, emburrando para nascer. Ella cruza as pernas, ainda mais forte e pede: “Corre que está nascendo“.

Finalmente chegam ao hospital. Param no estacionamento e Ella avisa: “Se eu descer, o bebê nasce“.
Então, pega uma toalha dentro da bolsa de maternidade e pede para Elle segurar. Elle pega a toalha e começa a tremer. Ella diz: “Segura esta toalha com firmeza, não deixe o bebê cair”. Elles se olham nos olhos por alguns instantes, ella deita sobre o banco traseiro do Fusca, levanta uma das pernas na altura do encosto e o bebê, naquele instante, nasce. Ali mesmo, no banco traseiro do Fusca com estofado de veludo.

Ella olha no relógio e memoriza, são 3 horas da manhã em ponto.

Elle continua tremendo, sai correndo em busca de um médico e gritando: ‘Já nasceu, já nasceu!’.

Ella senta no banco, pega pela primeira vez o bebê e descobre que é uma menina. Levanta-a ao alto, observa cada detalhe e pensa: “É perfeita!”. Confere dedos, corpo, sua pele é rosada e está limpa. Tem cabelos negros, lábios vermelhos. E sem que Ella espere, a menina espirra três vezes e mãe diz: “Seja bem vinda ao Paraíso” e a deita sobre sua barriga, fazendo carinho.

Elle chega correndo e aflito, confere se está tudo bem e vê as duas bem tranquilas no carro.

O médico chega um pouco depois. A menina não chorou e pensou que era apenas desespero normal de qualquer pai. O médico pinça o cordão umbilical, corta e a enfermeira leva a menina para dentro do hospital.

Lentamente Ella se levanta, olha para as enfermeiras e pede: “Não perca minha filha, sei quem é e cada detalhe dElla”.

No mesmo instante, olha firmemente para o médico e diz: “Quinze dias, né Doutor? Passou rápido, não?”.

E sobe na maca, deita e entra no hospital.

***Crônica especialmente escrita, em homenagem aos meus pais Donilia e Francisco, para o dia do meu aniversário 23/03.

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