Várias artigos já foram escritos sobre o episódio das vaias e xingamentos recebidos pela presidente Dilma na abertura da Copa. Percebi poucas variações: uma parte deles condenando como uma vergonha abominável, a outra parte defendendo e justificando a manifestação. E todos com bastante veemência. Por minha vez, demorei para compreender o fenômeno como um todo. Creio que tal lerdeza se explica porque, nos dias que se seguiram, o evento passou a incluir mais do que aquilo que se deu no estádio, abarcando também as repercussões nas redes sociais e as próprias análises feitas na mídia.

Muitos dos que se manifestaram não se deram conta que essa é uma daquelas situações análogas à entrevista que Jack Nicholson, no filme Profissão: Repórter, de Antonioni, tenta fazer com envolvidos numa guerrilha africana. Ao conversar com um curandeiro ouve dele que “Suas questões revelam muito mais sobre você do que minhas respostas revelariam sobre mim”. Também as análises sobre o comportamento do público na Arena Corinthians dizem mais sobre os próprios analistas do que os xingamentos dizem sobre o público.

Cada vez mais ganha força a teoria de que julgamos se algo é certo ou errado baseado nas nossas intuições emocionais, sendo as explicações racionais meras justificativas a posteriori. O filósofo escocês David Hume já dizia, no século XVIII, que a razão é escrava da emoção, e cada vez mais as pesquisas nas ciências cognitivas vêm lhe dando crédito. Daí talvez a dicotomia tão grande nas interpretações das vaias à presidente.

A hostilização e rejeição social são estímulos emocionais bastante fortes. Se atos tão sutis como evitar o contato visual ou olhar através de alguém já são suficientes para deflagrar a sensação de ostracismo, que dirá ser xingado abertamente por um coro de milhares de vozes. O desconforto gerado por tais situações é análogo à sensação de dor física: tanto é assim que a rejeição social ativa em grande medida as mesmas regiões cerebrais envolvidas na percepção da dor. E dada a capacidade humana de empatia – aquela habilidade de se colocar no lugar do outro e vivenciar seus sentimentos – a mera observação de alguém ser rejeitado já é suficiente para ativar nossos “circuitos dolorosos”, com mais intensidade quanto mais próximos nos sentimos da pessoa. Isso só não ocorre se não se gostar da vítima, caso haja raiva, ressentimentos ou algum outro motivo que leve à crença de que a hostilidade é merecida – nesse caso há até certo prazer no sofrimento alheio, que os alemães chamam de schadenfreude.

Fica mais fácil entender por que as reações aos xingamentos à presidente foram tão diferentes – e com argumentos tão incompatíveis justificando cada uma. Quem se sente próximo à Dilma, compartilha de suas ideias, a apoia, naturalmente tem mais empatia por ela, sentindo-se mais desconfortável com o episódio. Condená-lo é consequência automática e intuitiva dessa carga emocional negativa. Já quem nutre antipatia pela presidente, acreditando que tudo foi culpa dela mesma, aprova imediatamente os palavrões, achando até mesmo bem feito. Todas as análises teóricas e argumentos elaborados de um lado e de outro são simples decorrência desses sentimentos.

Seria interessante observar o que ocorreria se, antes de expor suas razões, as pessoas expusessem suas emoções. Talvez tivéssemos análises mais adequadas e úteis para compreender esse novo e intricado capítulo da história nacional.

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Wesselmann, E., Williams, K., & Hales, A. (2013). Vicarious ostracism Frontiers in Human Neuroscience, 7 DOI: 10.3389/fnhum.2013.00153