Você não precisa jogar o Pokémon Go para dar importância ao fenômeno. Antes de dar de ombros e descartar como bobagem, é bom saber que ele é um dos aplicativos mais baixados de todos os tempos, e apesar de ser gratuito faturou mais de cem milhões de dólares antes mesmo de chegar a países como Brasil e China. As pessoas já passam mais tempo no jogo do que no Facebook. Claro que ele não veio para ficar eternamente, mas seu êxito é bastante revelador sobre como a interação do nosso cérebro com os aplicativos poderá se dar daqui para frente.

As empresas querem criar produtos que nos façam ficar o máximo de tempo possível conectados a eles. Isso porque quanto mais imersos ficamos, mais chance temos de gastar dinheiro. O roteiro é conhecido: baixa-se o aplicativo de graça, envolve-se com sua narrativa, e a partir daí começa-se a pagar para melhorar a experiência. Raramente paga-se para jogar. Já para ter um melhor desempenho, passar de fases, seguir em frente, alguns reais são necessário. Poucos, para que não se sinta o peso. Mas repetidamente, garantindo o lucro da empresa.

Uma das estratégias mais bem sucedidas para nos manter engajados em qualquer coisa é a do reforço intermitente. Explico. Nosso cérebro é um instrumento de resolução de problemas e cada vez que conquistamos um objetivo experimentamos uma sensação agradável, seja ele qual for. Seja ganhar dinheiro, comprar uma bolsa ou conquistar dígitos numa tela de videogame, quando atingimos uma meta temos uma descarga de dopamina na região límbica do cérebro, nos levando a querer experimentar novamente aquela sensação. Só que quando a recompensa é incerta, quando às vezes ganhamos, outras não, o comportamento fica mais forte.  É isso que se chama reforço intermitente. Como não sabemos quando o comportamento trará resultado, nós o repetimos mais intensamente. O Pokémon Go usa essa estratégia: como você não sabe quando aparecerá o monstro a ser capturado fica o tempo todo de olho na tela. Se não está jogando, fica imaginando se encontraria um Pokémon naquela mesma hora se desse uma checada. Acaba ligando o celular. Nada. Dali a alguns minutos tenta de novo. Nada. De repente aparece um. Recompensa. E o ciclo se reinicia.

Mas o que faz desse aplicativo um caso a ser estudado é o fato de ele ter levado esse mecanismo a outro nível quando usou a realidade aumentada. Ao usar essa tecnologia, o jogo nos faz ter uma sensação de que o prêmio é mais real. Vemos o mapa real de onde estamos andando. Quando surge o bicho, ele parece estar no chão da sala, em cima da cama de verdade. Transportando as recompensas do mundo virtual para o mundo real ele confunde nosso cérebro e aparentemente aumenta o prazer da conquista.

Por isso é bom levá-lo a sério. Se os limites entre real e virtual já vinham sendo borrados, o Pokémon Go veio ensinar um caminho para derrubar de vez essa distinção. E em busca do nosso dinheiro essa será a tendência seguida pelas empresas nos próximos anos.

E nós, que achávamos que iríamos capturar os monstros, acabamos sendo capturados.

Divulgação.

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