A morte de uma criança é sempre trágica. Seja o motivo que for, a sensação de que algo está fora do lugar quando alguém morre jovem gera uma sensação difícil até mesmo de nomear. Quando a causa da morte é um crime, o incômodo se torna indignação. Mas o ápice do inconformismo é atingido quando existe a suspeita – ou a confirmação – de que os criminosos sejam os pais da criança. Nessas horas a população se revolta, ameaça de linchamento, sai às ruas clamando por justiça. Claro que é revoltante. Mas parte dessa reação extrema talvez seja fruto de nosso desespero ao dar de cara com uma sujeira que preferíamos que continuasse embaixo do tapete.

Infelizmente o assassinato de crianças – muitas vezes pelos pais ou padrastos – é apenas o ponto culminante de um problema muito mais comum do que gostamos de admitir. Os dados são controversos, já que a maioria dos casos não vem à tona, mas dados do Ministério da Saúde mostram que só em 2011, por exemplo, houve notificação de cerca de dez mil casos de violência doméstica contra adolescentes, numa média de quase trinta casos denunciados todos os dias.

Os casos mais extremos que culminam com homicídio não surgem num cenário até então pacífico, de boas relações familiares. Ao contrário, normalmente a vítima já sofria violência antes de morrer, e frequentemente não é a única a apanhar dentro de cada. A violência – vale lembrar – não é somente a agressão física, mas psicológica e por vezes a própria negligência.

Mais assustador ainda, estima-se que aproximadamente três crianças abaixo de um ano de idade morrem por dia no Brasil por “causas externas”, e mundialmente considera-se que um terço desse tipo de morte seja por homicídio. Falamos então de um assassinato de criança menor de um ano todo dia no país.

Quando um provável crime como a morte do menor Joaquim Pontes Marques, cujo corpo foi encontrado nesse domingo após cinco dias desaparecido, torna-se notícia, somos obrigados a encarar essa realidade. Nesse caso particular ainda há muito a ser esclarecido antes de condenar mãe ou padrasto pelo crime. Mas enquanto não tornarmos prioridade o enfrentamento da violência doméstica, novos casos ocorrerão todos os dias. Só não serão notícia.

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Secretaria de Vigilância em Saúde – Ministério da Saúde – Boletim Epidemiológico – Volume 44 – Nº 9 – 2013
Cavanagh K, Dobash RE, & Dobash RP (2007). The murder of children by fathers in the context of child abuse. Child abuse & neglect, 31 (7), 731-46 PMID: 17628666