Muitos anos atrás meu avô estava assistindo a apresentação de uma orquestra na TV quado me sentei ao lado dele. Ele já estava idoso, embora ainda fosse viver mais alguns bons anos, mas disse então algo que nunca esqueci: “É duro ir embora e saber que tudo isso aí vai ficar”. – referindo-se à beleza daquela apresentação que não poderia mais apreciar ao morrer. Recentemente descobri que Mário Quintana tem um poema que traduz o mesmo sentimento:

“Um dia…Pronto!…Me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer: Que me importa?
O diabo é deixar de viver.”

Tantas coisas que ficam para trás quando vamos embora, tantos prazeres, oportunidades, possibilidades, amizades. Por duro que seja continuar em frente muitas vezes, as coisas boas que existem – ou que podemos vir a experimentar no futuro – servem como estímulo para que continuemos. Todo mundo tem uma listinha das coisas que valem sair da cama mais um dia. Beber mais uma vez um cappuccino especial; ouvir novamente a playlist favorita; rever aquela comédia que nos fez chorar de rir; ouvir determinada voz repetir que te ama; comer um prato inesquecível.

O problema acontece quando esse apelo da vida fica menor do que a dor da alma. Nessa hora, seja porque o sofrimento é muito, seja porque os prazeres parecem soterrados, pode-se chegar à conclusão que levantar da cama não vale mais o esforço.

Como podemos evitar que as pessoas cheguem a tal ponto?

Sem dúvida reduzir o estigma que cerca a psiquiatria, a depressão e o suicídio é fundamental. É importante todo mundo saber que todo mundo está sofrendo de alguma forma. Sentir que não aguenta mais não é sinal de fraqueza, e pedir ajudar nessa hora, dizendo literalmente “Eu estou a ponto de desistir”, é muito mais sinal de força do que qualquer outra coisa. Ninguém precisa ter vergonha por quebrar o dedinho se tropeça no pé da cama, da mesma forma que não precisamos nos envergonhar de ficar deprimidos se tropeçamos pela vida. Não tenha medo nem vergonha de pedir ajuda.

Também é importante que as pessoas saibam que, embora no desespero a morte pareça uma saída, a maioria absoluta das pessoas que são impedidas de se matar muda de direção e não tentam novamente esse caminho. Depois do susto ela percebem que há soluções alternativas, que outras coisas podem ser tentadas, outras pessoas podem ser acionadas para vir em socorro. Não é o discurso de gente que não tem problema de verdade na vida – é o relato de quem ficou tão desesperançoso que optou pela morte mas percebeu que por mais improvável que pareça, o ser humano tem força para superar, contornar as crises. Ou simplesmente se aguentar firme até que os ventos mudem. E quando isso ocorre os prazeres vão aos poucos captando nosso olhar, como brotos verdes renascendo na primavera.

Não temos como viver uma vida sem frustrações, estresse, problemas, muitas vezes coisas sérias. Mas mantendo um olhar atento para as coisas boas que existem – num esforço consciente, mesmo sem se sentir assim em determinados momentos – e pedindo ajuda nas horas mais tensas, com certeza podemos encontrar a força e a motivação para seguir em frente.

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Leitura mental

O próprio Mário Quintana é um dos motivos para seguir em frente, em minha opinião. Foi com ele que entendi a lógica que rege os poetas: “Tudo é sempre outra coisa – segredo da poesia”, escreveu. Suas observações singelas e agudas sobre a vida e nossa relação com ela são de grande profundidade. Quintana é como um daqueles espelhos com lente de aumento – ao lê-lo enxergamos a nós mesmos, ma notando detalhes que até então nos passara despercebidos. Oportuno, portanto, o título O segundo olhar para a antologia do poeta lançada esse ano (Alfaguara, 2018). Talvez ali não tenha nada que nunca tenhamos visto – mas esse segundo olhar nos fará ver as mesmas coisas de outro jeito.