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De vez em quando a gente precisa de uns sustos para acordar. Levar um presta atenção, ou “prestenção!”, como diz o povo.

Uma crise conjugal às vezes é exatamente isso. Depois de um enorme trabalho para conquistar seu par romântico, quando você deu carinho, dedicou tempo, se esforçava para compartilhar interesses, o relacionamento entra num marasmo, como se o amor conquistado estivesse garantido. De repente vem uma crise, uma traição, um pedido de tempo, aparentemente sem motivo. É um chamado, um despertador para a vida. Não existe amor conquistado, prestenção! Relacionamento precisa de investimento contínuo.

A mesma coisa pode ocorrer nas finanças. Os gastos aumentam normalmente quando aumentam os ganhos. Se os gastos ficam excessivos, contudo, crises vindas de perda de emprego, alta do dólar, mudanças de mercado, funcionam como um prestenção!: dinheiro não aceita desaforo; nos anos de vacas gordas devemos nos preparar para os de vacas magras, como o profeta Daniel ensinou para o rei Nabucodonosor há tanto tempo.

Um dos motivos de as pandemias virem em ondas é nosso comportamento diante da doença. Quando estamos muito assustados com as notícias adotamos todas as medidas de segurança antes mesmo de a doença estar disseminada. Com o tempo o susto vai passando e as medidas relaxando justamente quando a doença está se espalhando. De repente, quando estávamos tranquilos surge a onda – criada por nós mesmos em nossa despreocupação. A nova onda leva a outra fase de cuidados, o que reduz a ameaça, diminuindo a preocupação. E lá vamos nós de novo.

Há poucas semanas estávamos discutindo se deveríamos continuar usando máscaras ou poderíamos dispensá-las. Tranquilos com o número de casos novos de covid-19 por dia planejávamos não se haveria festa de Réveillon, mas qual seria seu tamanho. Parecia que a pandemia tinha acabado. Aí surge a variante ômicron e acaba com a discussão: deixa essa máscara onde está e nem pense em aglomeração. A pandemia não acabou, prestenção! Foi algo parecido com a variante delta: estávamos começando a pensar em ficar despreocupados quando ela surgiu no horizonte. O que aconteceu então foi que não baixamos a guarda e, ao contrário do que ocorreu em muitos países que já estavam relaxados com as medidas sanitárias, aqui ela não fez grandes estragos.

Com a alta adesão dos brasileiros à vacinação e baixa rejeição ao uso de máscaras acho que esse prestenção! tem chance de funcionar. A variante é muito mais contagiosa, não há dúvida. Mas não fura as máscaras, não voa contra o vento e, aparentemente, não burla as vacinas. Então se nos mantivermos com os cuidados já tão conhecidos a essa altura – máscaras, ventilação, vacinação – poderemos ter condições de atravessar essa onda também sem muitos problemas.

Usar máscaras e evitar aglomerações pode não ser confortável, concordo. Mas é um preço muito baixo a se pagar para podermos, pelo menos, reunir uns poucos parentes no fim de ano, ter lugares para passear nas férias (e termos escolas abertas para quando elas acabarem), manter o comércio funcionando. Os maiores estragos das variantes ocorrem em lugares com menos restrições, como se não houvesse mais pandemia.

Fica a lição: na vida e na pandemia, quanto maior o descuido, mais forte bate o prestenção!

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Leitura mental

Se estiver precisando de um acolhimento para lidar com a frustração dessa nova onda – ou de todos os meses estranhos que vivemos desde o começo da pandemia – O livro do conforto (Intrínseca, 2021) pode ser uma boa leitura. O autor Matt Haig – que havia feito sucesso com o livro Razões para continuar vivo (Intrínseca, 2017) , em que relata sua experiência com a depressão – traz agora uma série de reflexões breves que funcionam como pílulas de incentivo. Não se trata de um otimismo ingênuo nem de um derrotismo fatalista, mas insights que nos dirigem para uma postura de apreender a realidade, aceitá-la e seguir em frente. Uma boa fórmula para nossos dias.