Novamente notícias de trotes violentos acabam nas páginas policiais. Dessa vez foi na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, onde após a festa do “bicho” um calouro relatou à polícia que os alunos foram forçados a consumir bebida alcoólica, humilhados, empurrados e agredidos fisicamente, enquanto os veteranos urinavam e vomitavam neles.

Embora a maioria dos estudantes de medicina no Brasil não considerem trote violento, a perda de controle sempre acontece em casos isolados, e tal escalada de violência é muito difícil de evitar uma vez iniciado esse ritual. Isso porque as pessoas (normais) se sentem mal quando vêem alguém sofrendo. Por isso, quado um sujeito impõe sofrimento a outro tem a tendência a desumanizá-lo para não sofrer também. Não é por acaso que os calouros são chamados de bichos (ou “bixos”). A partir daí, dependendo do número de pessoas envolvidas, da reação do calouro, do teor alcoólico dos participantes etc, a situação pode crescer em hostilidade e acabar descambando para violência extrema.

O caso atual ilustra ainda outro aspecto negativo do trote, já que além de ser hostilizado durante a festa o rapaz passou a sofrer ameaças após a denúncia. Sendo uma espécie de rito de inclusão, o trote acaba por excluir os que dele não participam, ou mais grave, que o denunciam como violento ou abusivo. Esse medo de ser alijado do grupo não só impele os calouros a entrar no jogo, como constrange todos a manter um silêncio cúmplice mesmo quando abusos acontecem.

Assim como as castas na sociedade indiana, os abortos de menina na China, o trote é parte de uma cultura tão arraigada que não irá deixar de existir apenas pelas proibições, seja dos governos, seja das faculdades. Um trabalho mais profundo – e constante – tem que ser feito para que, no longo prazo, esse resquício medieval seja finalmente abandonado.