Nossa sociedade pode ser muito injusta às vezes. Heróis ou vilões são definidos não por quem são, mas pela fama que ganham. Um dos maiores injustiçados que eu conheço, indevidamente chamado de vilão e até mesmo assassino, quando a única coisa que quer é fazer seu trabalho, é o famigerado estresse. Tudo é culpa do estresse: ele é que nos deixa doentes, ataca nossa memória, nos faz engordar, nos leva a matar e a morrer. Não quero agir como advogado de defesa, negando todos os seus crimes – totalmente bondoso ninguém é, afinal. Mas talvez ele não seja o monstro que fomos levados a acreditar.

Embora o estresse intenso ou contínuo de fato possa nos fazer mal, aumentando o risco para praticamente qualquer doença, quando ocorre de forma episódica ele ajuda na concentração, produtividade, memória e performance em geral. Em alguns aspectos ele é até prazeroso, pois a descarga de adrenalina que o acompanha, ocorrendo num contexto protegido ou favorável, é seguida de uma sensação de bem estar. A prática de esportes (radicais ou não), as montanhas-russas e os filmes de terror estão aí para comprovar.

Agora um grande estudo acaba de provar que o estresse pode não apenas deixar de ser vilão, como ainda se tornar herói. Estudando dados de pouco mais de dois mil homens ao longo de sete anos, cientistas americanos verificaram o quanto de estresse eles passaram ao longo do tempo em seus empregos. Verificaram também o quanto de autonomia os trabalhos proporcionavam, qual grau de liberdade dos empregados. Notaram que, em funções com pouca autonomia, a presença de muitas metas, prazos e sobrecarga aumentava o risco de morte em 15,4%. Por outro lado, em trabalhos nos quais os empregados gozavam de mais flexibilidade para decisões, a presença dos mesmos fatores de estresse estava associada a uma redução no risco de morte – significativos 34%.

Faz sentido. Afinal, a falta de autonomia é um fator por si só de desgaste muito grande. E o mais interessante é que pequenas mudanças, como flexibilizar um pouco os horários, permitindo algum grau de escolha por parte o trabalhador, já é suficiente para dar a sensação de autonomia. Políticas de combate ao estresse ocupacional precisam ser realistas. Não é factível querer que as empresas reduzam a carga de trabalho ou aliviem as metas. Mas deixar que o funcionário decida qual objetivo a ser atingido primeiro, a ordem das tarefas, ou mesmo o horário de almoço, já pode ser suficiente para um alívio. Nesse cenário, aliás, um pouco de estresse é até bom para a saúde, como mostrou a pesquisa.

Para fazer do estresse um aliado, portanto, diga para seu chefe que você quer mais trabalho – e peça em troca um pouco mais de liberdade. Todo mundo pode sair ganhando.

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Erik Gonzalez-Mulé, Bethany Cockburn. Worked To Death: The Relationships of Job Demands and Job Control With Mortality. Personnel Psychology, 2016; DOI:10.1111/peps.12206