Foto: Disney Pixar

Toy Story é uma franquia revolucionária. Mas o fato de ter sido o primeiro longa de animação totalmente feito por computador – há quase um quarto de século – é a menor de suas inovações. Sua grande novidade foi a introdução de temas voltados para adultos no roteiro, criando camadas mais profundas de leitura que agradassem aos também aos pais.

Assistindo o mais recente Toy Story 4 me dei conta de como eles levaram essa brincadeira a sério, não apenas dentro de cada um dos episódios, mas construindo um arco dramático que vai do primeiro ao quarto filme. Compreender e compartilhar as emoções de Woody e Buzz ao longo dos anos pode nos ajudar a atravessar etapas fundamentais do crescimento, amadurecimento e envelhecimento.

Em Toy Story conhecemos Andy, cujo brinquedo preferido é o xerife Woody, cowboy de pano que é uma espécie de chefe dos brinquedos. Até que o garoto ganha Buzz, um astronauta que, em sua modernidade, ameaça seu posto. A trama (para as crianças) mostra as aventuras em que eles se envolvem até se tornar amigos. Já os adultos vêem como é duro perder a arrogância da juventude. Primeiro porque ninguém é insubstituível e os afetos não estáticos, mas dinâmicos. Além do quê, é a fase em que descobrimos que não podemos tudo como sempre pensamos. Como quando Buzz, que acreditava ser um patrulheiro espacial, descobre que é mesmo um brinquedo. Incrédulo, ele tenta voar e cai espatifado no chão. Quebrado por dentro e por fora ele nos lembra de quando nós também caímos de cabeça (na vida). Mas nos seus relacionamentos ele consegue ver que mesmo não podendo tudo ainda pode muito. E Woody descobre que se aceitamos a dinâmica dos afetos conseguimos que eles se multipliquem em vez de se dividir quando há mais gente para amar.

Em Toy Story 2 pela primeira vez Woody se dá conta que a vida não é só o presente. Ele descobre que tem um passado e futuro, futuro no qual Andy não será mais um menino e se esquecerá dele. Enquanto o xerife fica tentado a ir para um museu, abrindo mão de um afeto destinado a ter fim, Buzz está numa loja descobrindo que existem milhares de bonecos Buzz Lightyear como ele – outra pancada que recebe, dessa vez em sua individualidade. É um subtexto bem dirigido para os adultos: além de você ser só mais um na multidão, essa criança do seu lado no cinema não estará aí para sempre. “Você acha que o Andy vai te levar para a faculdade ou para lua de mel? Andy está crescendo, e não tem nada o que você possa fazer sobre isso.” – diz um amargurado brinquedo para Woody. O cowboy considera então abandonar o garoto, mas chega a conclusão de que ele não pode o impedir de crescer, “mas não perderia isso por nada”. Tanto a identidade de Buzz como o sentido de Woody residem em estabelecer relações de amor. Que mais podemos fazer conosco e com nossos filhos?

No terceiro filme Andy vai finalmente para a faculdade. A cena dele doando os brinquedos para a garotinha vizinha, Bonnie (protagonista do filme seguinte), brincando pela última vez com eles enquanto apresenta os bonecos um a um sempre me emociona – é a mais tocante da franquia para mim. Ao introduzir o tema de uma terceira geração não podemos deixar de pensar nos avós e seus netos. Woody não deixa de amar Andy, mas agora já não o terá por perto. Aquele amor cuidadoso, inocente, será todo para Bonnie.

Finalmente no mais recente episódio Woody vive com Bonnie, mas tem ficado cada vez mais de lado nas brincadeiras, preterido por brinquedos mais novos. Ainda assim, é quem mais se preocupa com a menina. Ou seja, um típico avô. Mais surpreendente, contudo – a atenção para o spoiler – é que no decorrer da trama ele reencontra a boneca Beth, parceira do primeiro filme e que havia sido doada. E no final das contas – spoiler! – e decide ficar com ela, viajando pelo país com um parque de diversão, em vez de continuar com sua turma e com Bonnie. Ele se aposenta!

Como disse um amigo, os quatro filmes parecem ter a mesma história. E de fato a trama é a mesma: os brinquedos embarcam numa aventura improvável para salvar uns aos outros e continuar unidos. Mas a premissa que os enredos desenvolvem é diferente a cada filme, numa progressão cronológica que forma um paralelo ao que seguimos em nossa própria narrativa. Abandonamos a arrogância da juventude, aprendemos a duras penas a navegar as marés mutantes dos afetos, descobrimos que os relacionamentos dão sentido (em mais de um sentido) à vida, até sentirmos que podemos descansar quando finalmente alcançamos a sensação de dever cumprido.

É muita vida real para uma franquia de desenho animado. Que por isso mesmo foi revolucionária.

(Em tempo: se houver um Toy Story 5, prepare-se para o funeral do Woody).

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Leitura mental

“Respirei fundo e escutei a batida presunçosa de meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou”, escreve Sylvia Plath na tradução de Chico Mattoso. A escritora Maggie O’Farrell, no entanto, parece inspirar uma tradução diferente para o trecho “I am, I am, I am” em seu livro Existo, existo, existo, lançado esse ano pela editora Dublinense. Depois de se firmar como romancista O’Farrell se lançou nesse livro de memórias, nas quais narra dezessete episódios reais em que a vida foi colocada em risco, culminando com a experiência de temer pela morte da própria filha num choque anafilático. A vida que insiste em reafirmar “existo” após (ou por causa) de cada episódio, nos é apresentada como se fosse um romance, em toda sua crueza e beleza.