“Stańczyk durante um baile na corte da Rainha Bona diante da perda de Smolensk”. de Jan Matejko

Esses dias defensores ferrenhos do presidente Bolsonaro reagiram a um comediante que ousou fazer troça com o capitão. A situação não é nova: comediantes já foram criticados, atacados, ameaçados e até mortos por fazer piada com outros presidentes e autoridades no Brasil e no mundo. O que esse povo não sabe é que todo político deveria ser motivo de chacota. É bom para todos (mesmo que não seja agradável para eles).

As democracias só avançam na pluralidade de opiniões e nos embates políticos – as idas e vindas do jogo democrático tornam o caminho mais lento, mas protegem do avanço rápido em direções erradas. Isso acontece mais frequentemente em ditaduras, quando uma pessoa impõe sua vontade sobre todas as outras, mas também pode acontecer em situações especialmente delicadas na democracia, quando entra em cena o pensamento de grupo. Isso acontece toda vez que um grupo – como o círculo em volta dos poderosos, por exemplo – se encaminha para determinados consensos, adotando opiniões sem conseguir avaliar se são certas ou não por falta de pensamento crítico. Temendo desagradar os donos do poder, ser mal vistas pelos outros ou até serem expulsas do grupo, as pessoas abrem mão do questionamento, levando a decisões irracionais (por vezes catastróficas).

Daí a importância dos comediantes. Eles têm a capacidade de fazer críticas essenciais, questionando pressupostos, apontando irracionalidades, num tom que facilita a compreensão das pessoas. Você pode até concordar com o presidente, o prefeito, o síndico, o chefe, mas é importante saber se o que está sendo decidido é realmente óbvio, consensual, auto-evidente, ou se existem outras linhas de pensamento, visões alternativas, críticas à proposta. Sem isso é grande o risco de caminharmos cegos em direção ao abismo.

Encontrar esse tom é a grande arte da comédia. Humoristas competentes fazem graça ao manterem-se no ponto intermediário em que existe agressividade, mas ela vem diluída em bufonaria. Quando a piada é totalmente acrítica, não viola qualquer norma, não incomoda em nenhum aspecto, raramente ela faz rir. Mas quando a acidez passa do tom ela se torna ofensiva. Um desafio extra para encontrar esse equilíbrio é que a percepção de quão agressiva ela é varia de pessoa para pessoa. Temas muito sensíveis para determinado público – por serem recentes ou graves – podem não ser ofensivos para outro, mais distantes do problema.

Uma das razões da polêmica é essa. Os radicais que gritam com os comediantes não são contra o humor; nem mesmo contra o humor político. Eles são contra piadas sobre seu político do coração. Os que criticam a zoeira com Bolsonaro estavam rindo quando o alvo era Dilma; e os que reprimiam as piadas com ela hoje não se incomodam de ver o capitão na berlinda. São pessoas que, apaixonadas por seus políticos de estimação, têm o limiar muito baixo para se ofender quando falam deles e logo acham que a piada perde a graça.

Respirem fundo, radicais. Abaixem a guarda. Há piadas boas e ruins, tanto com a oposição quanto com a situação. Deixe o povo zoar à vontade. É bom para o país. Faz bem para imagem dos políticos rir junto. Porque os únicos que não admitem piada alguma são os ditadores. E isso seu político do coração não é, certo?

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Leitura mental

Dois livros essenciais para questionar os falsos consensos e pensar criticamente foram lançados esse ano. Factfulness: O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos (Record, 2019) foi escrito pelo médico Hans Rosling, médico especialista em números, em parceria com seu filho e nora, que criaram um método inovador para apresentação visual de informações. Recheado de dados surpreendentes o livro mostra as razões de termos percepções distorcidas sobre o mundo, ensinando caminhos para termos opiniões mais sólidas e embasadas. Já O guia contra mentiras: Como pensar criticamente na era da pós-verdade (Objetiva, 2019), foi escrito pelo neurocientista Daniel J. Levitin com um propósito nobre: ajudar o leitor a navegar no mar de informações que nos cerca hoje em dia. Da plausibilidade do que ouvimos dizer à probabilidade de ser verdade, passando pelo método científico, até introduzir conceitos sofisticados como as falácias e o raciocínio bayesiano, um kit de ferramentas crítico é apresentado de forma acessível ao leitor que cansou de ser feito de bobo na era da informação.