Quando nos preguntamos se uma ferramenta funciona – qualquer ferramenta – a única forma de responder é com outra pergunta. “Funciona para quê”? Um garfo funciona para comer; desde que não seja sopa. O mesmo raciocínio serve para a terapia online. Ela funciona? Depende para o quê.

Muito antes do surgimento da Psicologia como ciência ou das terapias como práticas clínicas o ser humano já sabia que o encontro com o outro pode ser terapêutico. Para começar, esse é um papel essencial da religião: elas sempre preveem espaços de diálogos para alívio da alma. Na Roma antiga os filósofos estoicos praticavam conversas que podem ser consideradas precursoras das psicoterapias – Marco Aurélio, imperador e expoente do estoicismo, afirmou ter descoberto que precisava de “correção e terapia para seu caráter”. Até mesmo a explosão do coaching no país mostra a demanda que existe para um espaço de diálogo direcionado.

Se quando pensamos em terapia logo vem à mente a imagem de um psicólogo conversando com alguém é porque o advento da Psicanálise e a posterior multiplicação de fundamentações teóricas para práticas psicoterápicas inseriu esse movimento no estado do conhecimento da época – e posteriormente na cultura popular.  Foi quando as terapias deixaram de ser apenas uma conversa de aconselhamento e migram para a esfera das doenças e das curas.

Os fins da terapia podem ser muitos, portanto. Autoconhecimento. Suporte em situações de crise. Tratamento de transtornos mentais. Melhora de comportamentos disfuncionais. A técnica ou fundamentação utilizada pode variar a depender do que se espera, mas fica claro que sempre há de ocorrer um encontro significativo, com troca, empatia, crescimento.

Tal encontro já teve lugar em templos, gabinetes, hospitais, consultórios. Com o barateamento das tecnologias de comunicação à distância esses espaços se ampliaram com a terapia online. Funciona? Depende. Para quê? Se for para possibilitar o encontro significativo entre alguém que precisa de ajuda e alguém disposto a ajudar (e capacitado para tanto), claro que funciona. Coisa que os estudos só têm feito comprovar.

Não é de se espantar. Afinal a terapia é tanto mais eficaz quanto mais interessado no paciente está o terapeuta. E isso, convenhamos, continua dependendo muito menos da tecnologia utilizada do que das pessoas envolvidas.

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Leitura mental

Parceria tão improvável quanto óbvia (depois de compreendê-la), o psicanalista Christian Dunker e o palhaço Cáudio Tebas se juntaram para escrever o livro O palhaço e o psicanalista, lançado esse ano pela editora Planeta. Fruto de um feliz encontro de ambos para ministrar um curso sobre a arte da escuta, a parceria se mostrou muito frutífera, resultando num livro em que as diversas formas de escutar – e de não escutar – os outros aparecem entremeando teoria, casos e causos. Thebas fez parte da trupe de palhaços do Jogando no Quintal, que levavam o humor muito a sério. Dunker é um psicanalista com dom de comunicador, e insere humor na seriedade de seu ofício. Paradoxalmente, um encontro raro, mas inevitável.