Esses dias estava tão cansado ao chegar em casa que mal consegui dar atenção para meus filhos. Jantei, tomei banho e tratei de ir logo deitar. Mas não conseguia dormir. Rolando na cama esperando o sono chegar me dei conta que precisava investigar melhor a diferença entre cansaço e sono.

Embora na linguagem cotidiana usemos as duas palavras praticamente como sinônimas elas se referem a déficits diferentes do nosso organismo. Sonolência é falta de sono. Cansaço é falta de energia. Quando as confundimos buscamos as soluções erradas para elas. Apenas dormir não resolve o cansaço. E descansar não alivia o sono.

Fora doenças como apneia do sono, insônia primária (falta de sono que não é consequência de outro problema) e insônia secundária (por conta de depressão, transtornos ansiosos, dor etc), que precisam de tratamento específico, a outra grande causa de sonolência é nosso comportamento inadequado. Ir para cama mais tarde do que deveríamos, assistir vídeos deitados, excesso de café, falta de rotina – higiene do sono precária, enfim. Comportamentos difíceis de mudar, mas que estão a nosso alcance.

Já as causas de cansaço podem ser mais difíceis de precisar. Nosso corpo gasta energia para se manter vivo, para se deslocar no espaço, para controlar a temperatura. Mas o órgão proporcionalmente mais dispendioso é o cérebro, consumindo sozinho 20% de nossa energia. Ou seja, a maior parte do nosso cansaço é mental, o que explica o desafio que pode ser identificar o que está nos roubando força. Será ficar remoendo os problemas na empresa? Dar conta de demandas do trabalho, de casa, dos filhos, tudo ao mesmo tempo? Checar redes sociais, responder e-mails e monitorar Whatsapp simultaneamente? Perder duas horas para ir e voltar do trabalho todos os dias? Calcular quais contas serão pagas e quais serão negociadas? Discutir a relação? Nossa vida evoluiu de modo a colocar o cérebro num verdadeiro cerco: para onde quer que ele se volte dá de cara com um trabalho que lhe consome energia.

Por isso é preciso lidar melhor com nossos pensamentos. Existem várias formas de gerenciar melhor o estresse (confira aqui, aqui e aqui). E não só isso: criar pausas, respiros, pode ser uma excelente saída. Há quem encontre isso na religião, desconectando-se um pouco em suas preces. Ou na meditação, outra maneira eficaz de aliviar a sobrecarga mental. Praticar esportes, exercícios físicos, desenvolver hobbies podem ser outras alternativas. Claro que o cérebro se mantém ligado e ativo em todas elas, mas o engajamento que tais atividades proporcionam evitam a passagem frenética de um pensamento para outro, de problema em problema, preocupação em preocupação, sem chegar a lugar algum.

Porque ficar gastando energia sem sair do lugar é garantia de chegar no fim do dia cansado – e ainda por cima não conseguir dormir.

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Leitura mental

Se você é dos que tem curiosidade sobre o funcionamento de algo, nada melhor do que consultar um manual. Essa é a ideia de Corpo : Um guia para usuário (Companhia das Letras, 2020), de Bill Bryson. Ele é um escritor de mão cheia, daqueles com raro talento para contar uma história envolvente e cheia de informação ao mesmo tempo. Nesse livro ele se volta para o ser humano, em capítulos que vão da superfície da pele à profundidade das vísceras, da concepção à morte, da perfeita saúde às cruéis doenças. Prosador divertido, Bryson mantém o ritmo ao longo das mais de quatrocentas páginas de informações saborosas.