O filme “Não me abandone jamais”, baseado no livro de Kazuo Ishiguro, é de 2010, mas passou pelos cinemas brasileiros no início desse ano e já está disponível em DVD. É a história de um triângulo amoroso num universo de ficção científica. Kathy e Tommy se amam, mas Tommy acaba namorando Ruth, que não queria ser deixada de lado. Ocorre que os três são clones humanos, destinados a doar seus órgãos num programa oficial do governo até que cheguem a suas conclusões, terminologia oficial para suas mortes.

A certa altura uma personagem responsável pelo serviço de educação dos doadores explica que “as pessoas” (excluindo os clones dessa categoria) não aceitariam voltar a um tempo em que as doenças eram fatais, recusando-se a abolir o programa de clonagem e doação. Elas nem sabem se os clones têm alma.

O filme é belíssimo e vai além disso, mas me fez pensar no aspecto da bioética que discute o enfoque holístico (total) versus o biológico do ser humano doente. Vejamos como é interessante o universo moral da medicina.

Investigando como os médicos lidam com tais questões, pesquisadores noruegueses observaram cerca de cem horas de atendimento de 15 médicos diferentes, perseguindo-os ao longo de seus dias de trabalho por onde quer que fossem, além de conduzir entrevistas com esses profissionais. O resultado foi que, independente da especialidade, os médicos tendiam a ouvir as histórias dos pacientes e recontá-las reduzindo-as a queixas, sinais e sintomas pertencentes ao universo biológico. Excluia-se qualquer significado subjetivo das situações (morais), focando apenas os aspectos funcionais dos indivíduos (biológicos). Menos do que uma falta ética, no entanto, essa desumanização pareceu ser resultado de os médicos se focarem apenas no princípio da beneficência, buscando fazer o bem para os pacientes, levando em conta apenas seus “organismos”. Os pesquisadores questionam mesmo se é factível uma medicina totalmente humanizada, dadas as demandas reais da prática clínica.

Uma coisa que o artigo não investigou, mas que acho relevante e faz ligação com o filme, é o que os pacientes pensam disso. Embora todos desejem um medicina ética, quando o que está em jogo é a vida ou a morte, surge uma zona cinzenta (sobre a qual já discutimos aqui), na qual parece que encarar o ser humano como uma máquina biológica que pode ser consertada muitas vezes pesa mais do que levar em conta que a realidade humana vai muito além do biológico, envolvendo aspectos subjetivos, tanto individuais como coletivos. Talvez nós mesmos prefiramos assim. É esse raciocínio estritamente biológico, afinal, que permitiu àquelas “pessoas” (morais, isto é, com alma) do filme aceitarem receber órgão de clones (biológicos, sem alma) considerados “não-pessoas”. E como uma delas diz, ninguém aceitaria voltar atrás.

Óbvio ululante que o programa do filme nos parece moralmente inaceitável. Mas o fato de aquela sociedade o aceitar moldou sua prática médica. Donde concluo duas coisas: os médicos são o que as pessoas esperam que sejam. E exatamente por isso, não há ética médica independente da sociedade.

ResearchBlogging.org Agledahl, K., Førde, R., & Wifstad, ?. (2010). Clinical essentialising: a qualitative study of doctors’ medical and moral practice Medicine, Health Care and Philosophy, 13 (2), 107-113 DOI: 10.1007/s11019-009-9193-z