Como setembro está terminando, acho que nós só voltaremos a falar sobre conscientização e prevenção de suicídio novamente daqui um ano. E olha que não estou achando ruim, não. Claro que temos que falar disso o tempo todo, mas o jeito que estamos falando não parece estar ajudando muito.

Fui dar uma olhada nos dados de mortes por suicídio nos últimos três anos, separadas por mês e veja o que encontrei:

Não parece que falar sobre o tema (ao menos da forma que estamos falando) ajude muito. No site do DATASUS há informações das últimas duas décadas e a forma do gráfico é sempre parecida. Não digo que a campanha seja responsável pelo aumento dos casos (para ser honesto um estudo estatístico talvez fosse capaz de provar que antes do setembro amarelo havia um aumento maior de casos no segundo semestre) mas pelos gráficos que vi, minha aposta seria que não estamos fazendo diferença nenhuma.

Mas a alternativa seria não falar do tema? Não. Devemos falar, mas em vez de tentar assustar as pessoas, poderíamos oferecer soluções.

  1. Para dar a dimensão do problema: jornalismo adora números e estatísticas. Tudo bem, mas ao apresentá-los evitar o tom alarmista, que só normaliza o comportamento, e informar que é algo relevante socialmente. Assustar não adianta nada.
  2. Ainda sobre números: se a matéria estiver pobre em termos de dado, enriquecê-la com dados positivos, como o número de atendimentos feitos pelo CVV, as estatísticas de que a maioria das pessoas não volta a tentar após uma tentativa frustradas, as novidades sobre taxas de melhora como novos tratamentos para depressão.
  3. Para informar sobre as causas: todo mundo quer saber os motivos, tanto gerais como dos casos particulares. Negue-se a dizer que as pessoas se matam por causa disso ou daquilo. Isso só incentiva outras pessoas nas mesmas crises a tomar a mesma atitude. Se o editor exige que se fale de uma causa, foque-se no fato de que a maioria dos casos está associada a transtornos mentais. Aproveite a deixa para ressaltar a importância de procurar atendimento quando há suspeita de sofrimento psicológico.
  4. Para entrevistas personagens: há matérias que não passam se não tiverem depoimentos e entrevistados. O melhor aqui é conversar com pessoas que venceram a depressão; que não se mataram; que receberam ajuda a tempo; com especialistas para desmistificar os tratamentos.
  5. Para prestar serviço: indicar locais de atendimento médico, psicológico, serviços de gerenciamento de crise.
  6. Para fazer denúncias: com a verve do jornalismo investigativo, mostre como muitos serviços estão sucateados, não têm vaga, déficit de RH, etc. Descubra quanto tempo leva para conseguir consulta com um psiquiatra na rede suplementar – quais os mais e menos eficazes planos de saúde nesse quesito? Quais limitam o número de sessões de psicoterapia?
  7. Para as editorias de ciência: o suicídio ocorre quando a vida parece intolerável, mas há estratégias comprovadas para manejo de crise. Mostrar quais são, quais as bases teóricas e científicas, por que elas funcionam, quais as novas técnicas que vêm sendo testadas. Conceitos como resiliência, manejo do estresse, autorregulação emocional, terapia dialética.
  8. Para as editorias de saúde: diferenciar tristeza de depressão, ansiedade normal de patológica, uso de álcool de dependência, timidez de fobia social, etc etc. Sempre lembrando que transtornos mentais são doenças que merecem tratamento, não sinais de fraqueza ou motivo de vergonha.

 

Não sei se essas dicas serão capazes de levar a uma cobertura que de fato previna o suicídio. Mas pelo menos ela segue uma lógica clara: fazer o oposto do que sabidamente aumenta o risco de novos casos. Parece-me um bom começo.