São raríssimos os grupos de Whatsapp que, criados para facilitar a comunicação de um conjunto de pessoas – colegas de profissão, funcionários da mesma equipe, membros da família -, não sejam contaminados por debates políticos. Nesse cenário de polarização parece que a discordância política tem mais poder para afastar as pessoas do que todo o resto que elas têm em comum é capaz de aproximá-las.

A origem do problema é incontroversa. Sabendo das tendências segregacionistas do cérebro humano, políticos fomentam a divisão para aumentar a adesão dos seus defensores. Sobretudo no vácuo de ideias capazes de convencer alguém a se tornar aliado a saída é pintar uma realidade binária, maniqueísta, demonizando o lado de lá. Você não precisa gostar de mim, basta odiar a outra alternativa (e acreditar que só há duas, claro).

Na nota oficial em que explicava sua decisão de considerar Adélio Bispo, o homem que tentou matar Bolsonaro, inimputável, o juiz Bruno Saviano fez um comentário significativo. “(…)dada a singular complexidade do caso, que trata de atentado de natureza política praticado contra a vida do então candidato e atual Presidente da República Jair Messias Bolsonaro, e ante a polarização do cenário político, o juízo deprecado enfrentou dificuldades em encontrar profissionais para atuar como perito no incidente de insanidade, alguns dos quais alegaram suspeição para o exercício do múnus, em razão do vínculo profissional ou de filiação a partido político”.

Quando existe a suspeita de que um réu cometeu o crime por causa de transtorno mental instaura-se um incidente de insanidade mental. O juiz, que é leigo em psiquiatria, pede para um médico atuar como perito – ou seja, examinar o réu e traduzir suas observações técnicas em linguagem compreensível. As partes envolvidas podem também contratar médicos para atuar como assistentes técnicos, auxiliando seus advogados a lidar com a matéria específica.

Teoricamente trata-se de uma avaliação isenta. A pergunta não é se o criminoso é uma pessoa boa, se é desalmado, se é uma vítima da sociedade ou um crápula. Basta responder: Ele é doente mesmo? Essa doença foi mesmo relevante para o crime? Claro que apesar de isenta a avaliação pode ser influenciada por alguns fatores. Quando o médico já tratou da pessoa, por exemplo, ele não pode ser perito porque perde a isenção. E também é suspeito se tem  interesse na causa: se é herdeiro, sócio, parente, amigo íntimo ou mesmo “inimigo capital”.

De acordo com o juiz Saviano não eram esses os motivos de suspeição que estavam dificultando sua busca por um perito. Era o clima político. Fico a pensar no grau de envolvimento afetivo com a política de quem se declarara suspeitos nessas condições. Sim, afetivo; porque racionalmente tanto faz eu votar no Bolsonaro ou ser filiado ao PT – isso não muda nada o estado de saúde mental de um criminoso. Mas tem gente – muita, ao que parece – cujas paixões estão intensas a ponto de turvar-lhes a razão, fazendo-lhes crer que têm interesse na causa. (Qual interesse eu tampouco compreendo, já que seja o criminoso preso numa cadeia comum ou enviado para um hospital de custódia e tratamento, nenhum de seus dois destinos possíveis me parece melhor que o outro).

Será que tem mesmo tanto médico assim filiado a um ou outro partido? Ou será que de tão mobilizados politicamente nós estamos perdendo a capacidade de ser isentos? Nesse tempo tão polarizado em que isenção virou ofensa, esse caso mostra a falta que um isentão pode fazer.

***

Leitura mental

Por falar em ponto de vista, nada melhor que um neurocientista para mostrar que o mundo está longe de ser como nós o enxergamos. No recém lançado Golpe de vista :  como a ciência pode nos ajudar a ver o mundo de outra forma (Rocco, 2019), o professor de neurociências da Universidade de Londres e comunicador Beau Lotto inverte tudo o que sabemos sobre percepções, provando que o cérebro não existe para ver as coisas como elas são, e sim de forma que nos seja útil. Extrapolando os achados da percepção visual para a interpretação da realidade como um todo, Lotto nos leva a refletir como precisamos questionar nossos pressupostos, não apenas para convivermos melhor, mas até se quisermos ser mais criativos.