[tweetmeme]Afinal de contas, será que podemos explicar a sedução das obras de M. C. Escher? Após a hipótese existencial que arrisquei no último post, volto-me agora para uma explicação mais mundana, baseada nos estudos de Daniel E. Berlyne.

Berlyne foi um professor de psicologia interessado sobretudo em estética e suas relações com a psicobiologia, ou seja, com os aspectos orgânicos, biológicos, da experiência do belo. Estudando as respostas fisiológicas, como aumento de hormônios ou frequência cardíaca diante de estímulos visuais, percebeu que a complexidade, a ambiguidade e a novidade geravam um estado de alerta que influenciava diretamente nessas respostas, bem como no prazer que os estímulos geravam.

Em um de seus trabalhos seminais, Berlyne apresentou figuras com diferentes graus de complexidade a dezenas de sujeitos, variando o tempo e a repetição de exposição às figuras. Os voluntários tinham que classificar as figuras de muito agradáveis até muito desagradáveis, em diferentes momentos da experiência. Os resultados mostraram que figuras simples e estímulos monótonos praticamente não despertavam os indivíduos, sendo considerados menos prazerosos a cada apresentação. Já os estímulos novos e os complexos estimulavam o alerta; se tal estímulo fosse moderado as figuras eram consideradas agradáveis, mas se fosse muito intenso, havia um certo desprazer. No entanto, com a apresentação repetida das figuras complexas, a novidade reduzia-se lentamente, não a ponto de tornar a experiência tediosa, mas suficiente para reduzir a intensidade do alerta gerado, tornando a experiência agradável. A sensação de compreender melhor a figura a cada nova apresentação levava à redução do alerta, produzindo prazer semelhante à resolução de um enigma.

Escher aparentemente sabia disso. Suas gravuras levam a uma sensação de estranhamento inicial que a cada nova exposição diminui um pouco. No entanto, como possuem algo de insolúveis, sempre sobra uma tensão suficiente para estimular nosso alerta, dando à experiência estética um sabor constante de novidade.

Ao falar sobre suas criações Escher mostrou que, mesmo não sendo psicólogo, compreendeu perfeitamente esse processo, pois sabia que “Deve haver um certo enigma nelas, mas que não seja captado imediatamente pelo olhar”.

Sedução geométrica – Versão PDF

ResearchBlogging.org Berlyne, D. (1970). Novelty, complexity, and hedonic value Perception & Psychophysics, 8 (5), 279-286 DOI: 10.3758/BF03212593