Não sei se você percebeu, mas ninguém – nenhum político, nenhuma autoridade ou porta-voz de governo, seja municipal, estadual ou federal, PT ou PSDB – apresentou uma solução convincente para a falta de água. Entre falas genéricas sobre obras que deviam ter sido feitas (nunca se diz quais) e a negação de racionamento, não só São Paulo, mas o Brasil todo atravessa a seca sem que ninguém tenha coragem de afirmar o óbvio: não existe solução técnica.

Pois é. “Nos nossos dias (embora não antigamente), as soluções técnicas são sempre bem vindas. [mas] Por conta furos em outras profecias, é necessário coragem para assumir que a desejada solução técnica não é possível”, escreveu há quase cinquenta anos o ecologista Garrett Hardin, num artigo para a revista Science que ficou famoso por popularizar o termo Tragédia dos comuns. Existem problemas, mostra ele, para os quais não faz sentido buscar uma resposta técnica, sendo necessário criar o que ele chama de soluções morais. Um desses problemas é a utilização dos recursos comuns. Como a água.

Resgatando o trabalho do matemático Willian Foster Loyd, Hardin exemplifica a situação com a história dos pastores que, além de seus próprios pastos, tinham à sua disposição uma pastagem comum, pública, onde podiam levar suas ovelhas se quisessem. Colocar um animal para pastar ali trazia um ganho e um custo: o ganho de economizar o próprio terreno, e o custo de utilizar o terreno público. O ganho, contudo, era inteiro do dono da ovelha, enquanto o custo era dividido por todos. Com esse desenho, o pastor tem o incentivo de levar seu rebanho integralmente para lá. Só que todos os pastores pensavam assim e o pasto comum acabava arrasado. A tragédia – utilizada aqui no sentido de inevitável – ocorre porque não há raciocínio alternativo, não existe qualquer forma racional de convencer as pessoas a não se comportarem dessa forma. Isso ocorre porque os atos individuais trazem um custo muito pequeno para o grupo, mas um grande benefício para cada um. Simplesmente pedir que o sujeito economize, ou seja responsável, inverte essa lógica: a restrição que ele se impõe individualmente ajuda pouco no todo, mas custa muito para si mesmo.

Nossa crise hídrica tem exatamente esse desenho. Eu tenho que fazer um esforço muito grande para economizar, mudar meu estilo de vida, reorganizar minhas rotinas, ficar em cima de filhos, esposa e de mim mesmo. Mas meu gasto, perto do tamanho dos reservatórios e represas, é irrisório e no final das contas eu pago um preço alto pessoalmente para contribuir muito pouco coletivamente.

Por isso não tem jeito. A não ser na marra. Precisamos encontrar, sugere ele – e eu creio que é o caso da água no Brasil – um sistema de coerção que reduza o incentivo do uso dos recursos comuns em excesso. A cobrança é uma forma eficaz. Mas como o custo da água não é tão expressivo no orçamento doméstico, não tem adiantado muito no nosso caso. Talvez uma maneira seja encarecer esse bem que vem se tornando escasso. Nessa linha, multas, punições ou qualquer outro meio de coerção que seja mutuamente acordada entre os afetados, torando errado, condenável mesmo, o abuso de um bem, é a única forma de estimular o comportamento coletivo necessário para a conservação do recurso comum.

Nem preciso esperar para ouvir as reclamações: “Ah, quer dizer que por incompetência do governo agora eu que tenho que pagar com minha liberdade?”. Não, você não entendeu. Por mais competente que seja qualquer governo, o aumento da população leva inevitavelmente ao esgotamento de bens comuns, mais cedo ou mais tarde. Então já não temos a liberdade que imaginamos há tempos, desde que decidimos nos estabelecer em grupos tão grandes: “Indivíduos presos na lógica dos bens comuns só são livres para trazer a ruína universal”, conclui Hardin.

Chato, não é? Desagradável falar que a culpa pela falta d’água é sua. E minha. Que a única resposta passa por estimular – e até obrigar – as restrições. Que só nos resta a solução moral. Muito impopular isso.

Entendeu porque nenhum político tem coragem de dizer?

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Hardin G (1968). The tragedy of the commons. The population problem has no technical solution; it requires a fundamental extension in morality. Science (New York, N.Y.), 162 (3859), 1243-8 PMID: 5699198