Tomara que você discorde de tudo o que estiver escrito aqui. Assim, quem sabe, nós podemos ter esperança de diminuir um pouco a propagação de bobagens on-line. Sim, porque quanto mais homogêneo o seu leque de relações, quanto mais parecidas com você são as pessoas que compartilham conteúdo, mais você tende a acreditar nelas sem questionar. E pior: passar a diante – sem pensar – as informações que receber delas. Então, se você discordar de mim, ótimo. Isso significa que sua bolha estourou e você recebeu uma informação “alienígena”, capaz de te fazer refletir.

Não se trata apenas de um exercício intelectual. A difusão de informações incorretas na internet é uma ameaça séria, como José Roberto de Toledo tratou na coluna de ontem. Ele cita o trabalho publicado no final do ano passado, intitulado justamente The spreading of misinformation online (A difusão de desinformações on-line, em tradução livre). Os pesquisadores analisaram o padrão de uso do Facebook de mais de um milhão de usuários, focando especificamente na forma como compartilhavam notícias de ciências ou teorias conspiratórias. Os resultados foram interessantes: os dois tipos de conteúdo se espalham rapidamente, em questão de horas, e duram pouco, a maioria não sendo compartilhado por mais de um dia. No caso das teorias conspiratórias, no entanto, elas parecem demorar um pouco mais para ganhar fôlego, e apresentam uma relação entre alcance e duração (pode ser que quanto mais gente seja alcançada, mais tempo elas durem, ou vice-versa). E o fator mais importante para a divulgação foi a homogeneidade dos grupos – as análises mostram que são dois conjuntos distintos de pessoas que partilham tais conteúdos, e quanto mais parecidas entre si elas são (avaliadas pela similaridade de seu comportamento online), maior a chance de passarem adiante a notícia. Ou seja, se você recebe uma informação de alguém com os mesmos interesses que os seus tem grandes chances de compartilhá-la. E as pessoas que receberem esse conteúdo de você também o compartilharão mais quanto mais se assemelharem ao seu perfil. Isso cria o que os cientistas chamaram de câmara de ressonância, amplificando a informação, seja correta ou não.

Mas qual o problema? O que tem demais eu trocar ideias com pessoas que concordam comigo?

O problema é que a difusão de informações falsas, dos simples boatos às teorias conspiratórias, podem trazer consequências reais para a vida das pessoas. Vide as irresponsáveis campanhas que alegam que vacinas causam autismo. Ou as muitas histórias sobre o zyka vírus que – com o perdão do trocadilho – viralizaram ano passado. Desde que a doença deixava crianças em coma até que o governo teria aplicado um lote vencido de vacinas contra rubéola em gestantes e causado o surto de microcefalia, tentando culpar o vírus por seu erro. Fora as histórias sobre guerra civil no Brasil, rebeliões de criminosos, confisco de poupança etc. As pessoas podem ser levadas a mudar sua rotina, alterar seus hábitos e até negligenciar sua saúde baseada nessas mentiras. Como nós lidamos muito mal com a angústia da falta de uma explicação, situações de incerteza e ansiedade (como o surto de uma doença nova ou aumento súbito da violência) nos tornam mais susceptíveis a acreditar na primeira explicação que parecer fazer sentido. E assim nascem boatos e teorias da conspiração.

Como brecar esse perigoso avanço da desinformação? Com uma simples pergunta: “Será?”. Em vez de passar adiante, de forma acrítica, tudo o que recebemos, vale a pena questionar se a informação realmente tem sentido. Não seria um boato? Poderia ser mentira? Mesmo que num primeiro momento pareça coerente, talvez não seja bem assim. Mas é difícil fazer isso quando a informação de uma fonte em que confiamos, alguém semelhante a nós. Por isso a importância da heterogeneidade.

No próximo texto apresentarei instrumentos para identificar uma teoria conspiratória e ferramentas para pensar de forma crítica sobre argumentos. Mas por ora fica a sugestão: leia articulistas com os quais você diverge. Siga sites que não têm nada a ver com você. Compartilhe conteúdo do qual você discorda. Pode ser uma boa maneira de pensar e fazer pensar.

ResearchBlogging.org
Del Vicario, M., Bessi, A., Zollo, F., Petroni, F., Scala, A., Caldarelli, G., Stanley, H., & Quattrociocchi, W. (2016). The spreading of misinformation online Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.1517441113