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Eu pedi para um amigo mentir para o Moacyr Scliar. Estávamos nos primeiros anos da faculdade e o centro acadêmico convidou-o para uma palestra. Como já era fã, levei dois livros para ele autografar, A paixão transformada e A orelha de Van Gogh, mas na hora tive vergonha de apresentar ambos. Virei-me para o Aloísio e pedi que ele entrasse na fila comigo, dizendo chamar-se Daniel para assim obter os dois autógrafos (obrigado por mais essa, acrescente na minha enorme dívida).

Na entrevista do concurso para residência médica eu citei Moacyr Scliar. Um dos professores do Departamento de Psiquiatria me perguntou se eu tinha algum interesse em psicoterapia. Eu já havia comentado sobre meu gosto pela literatura, então citei um trecho da introdução do devidamente autografado A paixão transformada – que eu já tinha na manga preparado exatamente para essa ocasião – no qual Scliar dizia que a proximidade entre a literatura e a medicina é ainda maior na Psicanálise. Sendo médico e gostando das letras, concluía, o interesse era inevitável.

Durante a residência médica, abri um seminário sobre epilepsia com um conto do Moacyr Scliar. Era sobre tratamento ou algo assim, e na época a tecnologia mais avançada que eu dominava era a do retroprojetor. Lembro-me de escarafunchar a memória tentando arranjar uma citação de impacto para a colocar na primeira transparência; o caso do Dostoiévski já era batido, queria algo novo. Lembrei-me de um conto dele na coleção Para Gostar de Ler, no qual um menino com epilepsia narra sua crise em primeira pessoa.

Eu corri atrás do Moacyr Scliar. Quando escrevi o livro Machado de Assis: a loucura e as leis pedi para meu editor tentar que ele fizesse um prefácio. Era uma escolha bastante natural. Com Conan Doyle eu aprendera que era possível ser escritor, mesmo sendo médico; com o Oliver Sacks, que era possível ser escritor-médico; mas foi com Scliar que vi a possibilidade de ser escritor e médico, que a medicina podia ajudar a fazer literatura, só, nem médica nem científica. Infelizmente ele não pôde prefaciar meu livro.

Acho que até hoje eu corro atrás do Moacyr Scliar. Quando li A face oculta, compilação de crônicas sobre a medicina que ele publicava em jornal, percebi que de certa forma é mais ou menos isso o que tento fazer nesse blog. Falar sobre medicina num tom não médico, transitar entre os universos da arte e da ciência, desmistificar a medicina sem banalizá-la. Vou continuar correndo.

Já tenho saudades do Moacyr Scliar.