Hospital de campanha no Pacaembu/SP.Foto: Felipe Rau / Estadão

Numa semana o cenário estava tão preocupante que se considerava determinar o lockdown, a restrição máxima à circulação de pessoas. De repente, na semana seguinte as autoridades anunciaram o começo do relaxamento das restrições. Ninguém entendeu muito bem. A curva já atingiu o pico? A pressão econômica foi demais? Descobriram a vacina? A cloroquina funcionou?

Não. Nada disso. Simplesmente estamos nos aproximando do ponto que descrevi em abril, no artigo As mortes normais. Todos se perguntavam então quando a vida voltaria aos eixos. Uns olhavam para o vírus e diziam que isso não aconteceria antes de descobrirmos uma vacina e a produzirmos em larga escala. Outros olhavam para os infectados e aguardavam a imunização de rebanho, quando a maioria de nós já tivesse sido infectada. Havia os que imaginavam um cenário em que a massa de desempregados se voltaria para o crime num cenário pós-apocalíptico, nos forçando a voltar para a vida. Mas de tanto olhar para fora esquecemos de olhar para dentro, onde estava a resposta.

Tanto que nada disso aconteceu e ainda assim estamos começando a retomada. Por quê? Porque atingimos o ponto das mortes normais.

A gente sabe que as pessoas morrem. É normal. Só no Brasil são mais de um milhão de mortes por ano. Faz parte da vida. O problema com a Covid19 não era matar. Sedentarismo mata. Queda no banheiro mata. Dengue mata. A gente aceita. Mais cedo ou mais tarde chega nossa hora. Mas a pandemia trouxe uma novidade que não dava para aceitar: anteciparem nossa hora. Aí não dá. Se existe um tratamento que nos dá a chance de sobreviver mas o colapso na saúde nos impede de ter acesso a ele sentimos que não era nossa hora. Que morremos por falta de organização. Antes da hora. Isso não aceitamos.

Paramos então para dar tempo de organizar o cenário. As infecções precisavam ir mais devagar para que as UTIs não lotassem. A escassez de ventiladores tinha de ser corrigida. Exigíamos saber que a tecnologia que poderia ser usada seria usada. Daí a corrida para desenvolvimento (ou compra) de respiradores baratos, a construção de hospitais de campanha, o monitoramento constante das taxas de ocupação das UTIs. E com isso atingimos esse ponto em que nos parece razoável voltar para a vida. O Brasil caminha para ser o campeão mundial de casos e mortes, mas sentimos que quem se infectar e ficar grave terá o tratamento adequado. Se morrer é porque chegou a hora.

Os epidemiologistas não se conformam: “Está muito cedo! Mais pessoas vão se infectar. E morrer!”, se desesperam. Os virologistas não compreendem: “A curva de infecções não chegou ao pico”, pensam. Os jornalistas se perguntam onde erraram: “Como as pessoas aceitam isso? Não entenderam a mensagem?”.  Entenderam, claro. Sabem que podem morrer. Mas desde que tenha vaga em UTI acham que só morrerão mesmo se chegar a hora.

E assim caminhamos para abertura. Enquanto tivermos a sensação de que ninguém morreu sem tratamento estamos na esfera das mortes aceitáveis. Mas não nos iludamos: basta que mortes por falta de assistência ganhem as manchetes para que caminhemos para trás. Porque – na nossa cabeça – tudo tem limite.