Há um mês escrevi em minha coluna no Metrópole sobre a polêmica envolvendo o ator Fábio Assunção e a banda que lançou uma música ironizando situações de embriaguez em que ele foi filmado. A tese era simples: a enxurrada de memes e piadas não só com Assunção, mas com várias figuras públicas flagradas intoxicadas, mostra como nós julgamos e condenamos determinadas condições. Por não entendermos a dependência química como uma doença, e sim como um vício moral, transformamos a exposição pública num merecido castigo.

Ali eu perguntava – como vários artistas que saíram nos últimos dias em defesa do colega – “você consegue imaginar vídeos satirizando um ator andando trôpego pelas ruas por estar fraco em razão de um câncer? Máscaras de carnaval tripudiando da calvície causada pela quimioterapia? Então, por que fazemos isso com a dependência química? Porque, no fundo, culpamos a pessoa. Achamos que ela merece ser exposta e humilhada. Afinal, ela é responsável por seu estado lamentável.”

O interessante é que vários comentários de leitores apenas confirmavam a tese do artigo. “Pediu minha opinião eu dou: câncer é doença, depressão e dependência química não. São apenas muletas para fugir às responsabilidades. Coitadismo e vitimismo, enfim.”, disse um. “Este psiquiatra maluco não quer entender o óbvio ululante: quem tem câncer não tem nenhuma culpa, absolutamente nenhuma. Já o viciado em drogas se drogou porque quis e em seguida ficou viciado. Mas ele entrou nisso por um ato livre de sua parte. Ele é responsável por ter entrado neste inferno.É difícil entender isto?”, diagnosticou-me outro. “Qualquer drogado, no passado, teve a chance de evitar o primeiro gole, a primeira tragada, a primeira picada, o que convenhamos, é muito difícil de se fazer quando a droga é de uso legal”, concluiu um terceiro.

Se não resta dúvida que há uma condenação sobre os dependentes químicos, vale a pena refletir em por que a punição que lhes impingimos vem em forma de piada. É interessante que em vez de críticas diretas aos comportamentos as redes sociais sejam inundadas com memes. Vídeos inflamados contra as drogas não fazem sucesso, o que viraliza são os vídeos das pessoas embriagadas.

Isso só revela o quanto a questão da droga é mal resolvida para nós. Freud foi o primeiro a apontar que a ironia é um mecanismo de defesa contra as coisas de que temos medo. Crianças às voltas com as descobertas da sexualidade infantil adoram anedotas sobre cocô, xixi, pipi. Adolescentes fazem piada com sexo para tudo. Adultos brincam com adultério, idosos com a morte. É uma forma de se proteger de temas sensíveis com os quais não sabemos lidar.

Insistimos em rir dos dependentes porque não sabemos lidar com as várias facetas da dependência química. O dependente é essa figura ambígua que usa o quanto quer determinada substância e paga em si mesmo o preço desse abuso. Ele mostra mais do que gostaríamos que prazeres trazem riscos.  Mas nós não queremos pensar nisso, então fazemos graça.

A questão é que do outro lado estão seres humanos de carne e osso, que sofrem, choram, adoecem e, ao final, morrem. Só quando isso acontecer é que veremos – retrospectivamente – como as piadas eram sem graça?

 

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Leitura mental

A bebedeira não é um fenômeno único. Ela se reveste de significados diferentes dependendo do tempo histórico, do contexto cultural, do ritual a justificá-la. Mas ela está sempre nos rodeando. É o que mostra o livro Uma breve história da bebedeira, do escritor Mark Forsyth, lançado ano passado pela Companhia das letras. Começando pela pré-história, passando pelas grandes civilizações antigas e chegando a lugares de bebedores contumazes, como o Velho Oeste ou a Rússia o autor mostra como o ato de beber – muitas vezes em demasia – é um companheiro aparentemente inseparável do ser humano. Talvez conhecer sua história seja uma boa maneira de colocá-lo em perspectiva para lidar melhor com ele.