fh

Andei por uns tempos pensando em fazer uma apresentação de stand up. Seria chamada Stand Upsi ou algo assim, recheada com piadas sobre como as pessoas reagem (mal) quando falo que sou psiquiatra. Começaria dizendo mesmo com problemas graves as pessoas preferem mudar de religião a consultar um psiquiatra. Várias vezes. Mostraria o lado irônico dos preconceitos que enfrento e vejo meus pacientes enfrentarem. Reuniria causos vividos na prática profissional, que transitam entre o trágico e o cômico, dependendo de quanto o público bebeu. Mas fui dissuadido pelos meus pares. O argumento que matou a ideia só poderia ter vindo de um patologista. Em tempos de redes sociais e celulares que filmam, o risco de ver uma declaração retirada do contexto viralizando na internet não valia a pena. Já podia ver o título do vídeo no YouTube: “Psiquiatra quebrando sigilo médico e tirando sarro dos seus pacientes”.

Pena, porque o humor é uma ferramenta excelente para a psiquiatria. E vice-versa. Desde a residência médica, por exemplo, colegas já diagnosticavam a ironia como meu mecanismo de defesa. Auto-ironia, inclusive. Ou principalmente. Rir, afinal, é também uma maneira muito eficaz de lidar com o estresse. Funciona como uma espécie de amortecedor aliviando o impacto das pressões da vida. Além disso há um paralelo entre a terapia e as piadas: estas mostram outro lado das coisas, revelando ângulos inusitados que divertem ao nos pegar de surpresa. Essa mudança de perspectiva é exatamente o que muitas vezes se busca no trabalho terapêutico. Sem contar que rir melhora o humor.

A escritora Jenny Lawson sabe disso. Ela tem muita experiência com a psiquiatria, e consegue fazer rir contado histórias  horríveis. Mas ela está do lado de lá da mesa – é uma portadora de transtornos mentais, como ela mesma gosta de frisar. “Transtorno mental”, diz ela. “É uma expressão que costumava me dar medo, mas que passei a usar como um casaco velho – confortável, porém feio”. Sofrendo com uma ansiedade muitas vezes paralisante, apresentando fases depressivas graves, lutando contra impulsos de automutilação, certo dia ela se cansou de apenas ficar triste. E lançou o movimento #furiouslyhappy, ou Alucinadamente feliz, título de seu livro lançado no Brasil pela Intrínseca.

Por contraditório que pareça, mesmo girando em torno das agruras de uma vida cercada de problemas sérios, é o livro mais engraçado que já li. Só lembro de ter rido alto, sozinho, quando ainda era adolescente e meu pai me apresentou o Luis Fernando Veríssimo em sua melhor forma. (E também com os livros do Calvin e Haroldo, até hoje para constrangimento de minha esposa). Não dá para reproduzir as piadas de Lawson aqui – seu estilo, não só as anedotas, é o que leva às gargalhadas. O jeito com que lida com os medicamentos que tem que tomar, a forma como descreve as discussões com seu o paciente marido, até a inclusão de transcrições que faz das consultas com sua psiquiatra mostram uma disposição para rir da própria vida, mesmo quando ela está de ponta-cabeça. Ela sabe que a depressão mente. Que o cérebro doente tenta enganá-la, levando-a a desistir do tratamento muitas vezes. Mas lembra-se então como a vida pode ser ainda pior sem ele. E se obriga a continuar. E a rir.

Não é autoajuda barata. Está mais para autocrítica. Ela confessa que tem horas em que não consegue das risada de nada. Em que se fere. Ou se esconde – literalmente – embaixo da mesa. Mas com tantos anos enfrentando essa luta, sabe que os vales não duram para sempre. E se lembra de quando conseguia rir. Por isso ela vive alucinadamente feliz sempre que pode. Além de afugentar a tristeza, cultivar a alegria faz com que novas boas memórias sejam criadas, que serão importantes no futuro para ajudar a atravessar a próxima fase triste.

Pensando bem, não é muito diferente da vida de todos nós, é?