Robin Hood, por Louis John Rhead

Possivelmente você já passou pela situação desesperadora de, numa dessas tensas conversa políticas, apontar que determinado candidato mente descaradamente, só para ouvir que “pelo menos ele é autêntico”. “Não!” – você pensa (ou diz, ou grita, dependendo da intimidade ou raiva). “Ele é o oposto disso. Ele é mentiroso.” Impassível o outro insiste que tanto faz, já que ele está “do nosso lado”. Fim de papo. De festa. De amizade.

Meu conselho, baseado em evidências científicas, é bastante breve. Desista. Não adianta insistir que o candidato está mentindo, distorcendo os fatos, nem mesmo mostra que ele é preconceituoso, homofóbico, machista ou o que for. Uma vez que alguém se identifica com um candidato e acredita que ele é sua salvação, vê-lo quebrar quaisquer regras básicas de decoro só aumenta a identificação.

Pesquisadores do Massachussets Institute of Technology publicaram esse ano uma pesquisa revelando essa desalentadora realidade. Numa fictícia eleição acadêmica discutia-se a proibição do álcool no campus. Variando os cenários, os pesquisadores apresentavam para diferentes voluntários o candidato da situação contra o concorrente defendendo um lado ou outro,  mentindo ou dizendo a verdade. Além disso eles criavam previamente uma identificação entre os voluntários e um dos dois candidatos – as pessoas respondiam um teste de personalidade e eram “diagnosticadas” como sendo do tipo Q2 ou S2, ao mesmo tempo em que os postulantes ao cargo eram também apresentados como Q2 ou S2. Por fim, e mais importante, os cenários traziam por vezes uma crise de representatividade, com um dos candidatos sendo apresentado como não legítimo ou como favorecendo grupos de fora da escola.

Os resultados foram claros. Quando não há crise, mentir não ajuda ninguém. Mas quando se está atravessando uma crise de legitimidade, seja porque o candidato da situação atuou em benefício próprio, seja porque tem privilegiado gente “de fora”, as pessoas identificadas com um candidato viam seu comportamento mentiroso e sexista como símbolos de sua luta contra “tudo o que está aí”, por assim dizer. Eles eram vistos até como mais autênticos do que quando diziam a verdade, já que não aceitavam as “regras do jogo”.

Portanto não adianta bradar “fake news” diante das mentiras dos outsiders. Tampouco denunciar comportamentos agressivos ou chauvinistas. A política está numa crise de representatividade e as minorias estão ganhando voz. Nesse contexto, quem acredita na existência maniqueísta de dois lados, de bem contra o mal, e crê que um candidato está do seu lado só vê méritos em seus defeitos.

Não precisa terminar a amizade ou o namoro por causa disso. Esses eleitores podem ser boas pessoas apesar disso. Só não imagine que há alguma chance mudança de opinião. O jeito é aceitar. Intolerância, afinal, só contribui para dividir mais a sociedade. O que é um prato cheio para tais candidaturas.

Hahl O, Kim M, Sivan EWZ.The Authentic Appeal of the Lying Demagogue: Proclaiming the Deeper Truth about Political Illegitimacy. American Sociological Review Vol 83, Issue 1, pp. 1 – 33

 

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Leitura mental

Vivemos o dilema de atravessar um tempo em que a política é tanto mais criticada quanto mais é necessária. Só que a não ser que queiramos voltar para a pré-civilização, a solução para os grandes problemas do país e do mundo – das doenças à fome, das guerras à economia – terá que ser política. Mas o que significa política, afinal de contas? Se você já teve que responder essa pergunta e engasgou, o livro A política explicada a nossos filhos (Editora Unesp, 2018) vem bem a calhar. A professora francesa Myriam Revault d’Allonnes usou sua experiência anterior – a de introduzir conceitos filosóficos complexos para crianças – nessa obra fundamental. Democracia, ditadura, regimes políticos distintos em tempos e lugares diferentes ajudarão muitos pais, mais do que seus filhos propriamente ditos, a compreender que a complexidade das nossas sociedades é insustentável com o superficial discurso dos que pregam o fim da política.