A história é conhecida. O sujeito sai da pobreza, experimenta uma ascensão social vertiginosa, conhece dias de glória, até que é forçado a se aposentar, antes do quarenta anos. Pouco tempo depois começa a ficar irritado, impaciente, muda o seu comportamento. Ninguém demora a atribuir essas mudanças à aposentadoria precoce, à perda de status, que certamente explicam esse mau humor. Mas o tempo passa e o comportamento não melhora – às vezes mesmo com o tratamento – e por fim o ex-astro acaba derrotado por um quadro demencial.

Essa é uma história que se pensava restrita aos boxeadores – tanto que originalmente essa doença foi chamada de demência pugilística. O campeão brasileiro dos pesos pesados, Adilson Maguila, é um dos ex-atletas que vêm enfrentando as consequências do repetidos traumas cranianos acumulados ao longo da vida. Mas conforme prestamos mais atenção à encefalopatia traumática crônica (ETC), em mais atletas a encontramos.

O assunto ganhou vulto por causa de dinheiro. Em 2005 um patologista forense da Universidade de Pittsburgh publicou o relato de caso de um ex-astro do futebol americano que cometera suicídio, diagnosticando que ele apresentava ETC. Não surpreende, pois afinal esse é esporte em que também ocorrem muitas e fortes pancadas na cabeça o tempo todo. Temendo a avalanche de processos que poderia vir daí, a NFL (Liga Nacional de Futebol Americano) entrou numa batalha com os cientistas, tentando desvincular os traumas à ocorrência da doença. As evidências se acumularam com o tempo, contudo, até que ela fez um acordo, pagando 765 milhões de dólares para jogadores aposentados. Além disso, as regras do esporte vêm se tornando mais restritivas, tentando reduzir a ocorrência dos impactos no crânio.

Agora chegou a vez do nosso futebol. Há duas semanas, durante a final da Champions League – campeonato entre os clubes europeus – o goleiro Loris Karius falhou miseravelmente em dois lances, tomando frangos patéticos. Uma semana depois foi revelado que ele sofrera uma concussão cerebral – no início do segundo tempo tomou uma cotovelada no rosto que o derrubou, mas continuou jogando. Os médicos que o avaliaram nos EUA relataram que ele ainda não havia recuperado totalmente a capacidade visuo-espacial – o que indica que ela fora alterada pela pancada. Só assim mesmo para explicar as falhas amadoras do atleta.

Os traumas cefálicos são muito mais comuns do que se imagina no futebol. Na Copa do Mundo de 2014 foram o segundo mais frequente, só perderam para lesões em coxa. Será que nossos atletas também não estão em risco de ETC?

Estão. Há dois anos um grupo de médicos brasileiros diagnosticou formalmente, a partir de estudo post mortem, que essa encefalopatia acometeu Bellini, capitão da Seleção Brasileira de 1958. E não são apenas as trombadas que afetam os neurônios dos jogadores. Num estudo com jogadores amadores acompanhados ao longo de um ano, cientistas americanos  constataram já nesse intervalo alterações na massa cerebral e nas funções mentais, sobretudo na memória. Nesse estudo os problemas começaram a aparecer após 1800 cabeçadas. Levando em conta que eles contabilizaram entre 6 e 12 cabeças por jogo, mais 30 por treino, um treino e um jogo por semana são suficientes para prejudicar o cérebro já no primeiro ano. Novamente temendo futuros processos, nos EUA a Federação de Futebol proibiu que crianças abaixo de 10 anos treinem o cabeceio e limitou a prática entre os 10 e 13 anos.

Muitos poderão reclamar que a regulamentação excessiva irá roubar a graça dos campeonatos. Mas quando empresas lucram à custa da saúde dos empregados por os submeterem a condições insalubres não as obrigamos a mudar? Por que nos esportes faríamos diferente?

 

Lipton ML, Kim N, Zimmerman ME, Kim M, Stewart WF, Branch CA, Lipton RB. Soccer heading is associated with white matter microstructural and cognitive abnormalities. Radiology. 2013 Sep;268(3):850-7.  

Grinberg LT, Anghinah R, Nascimento CF, Amaro E, Leite RP, Martin Mda G, Naslavsky MS, Takada LT, Filho WJ, Pasqualucci CA, Nitrini R. Chronic Traumatic Encephalopathy Presenting as Alzheimer’s Disease in a Retired Soccer Player. J Alzheimers Dis. 2016 Jul 29;54(1):169-74.

 

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Leitura mental

Joseph Jebelli travou contato com a Doença de Alzheimer ainda muito novo, quando viu seu avô mudar progressivamente. Não foi por acaso que decidiu dedicar sua carreira como médico e cientista a esse problema que, estima-se, atingirá 135 milhões de pessoas até 2050. Em seu livro de estreia, Em busca da memória : uma biografia da Doença de Alzheimer, da sua descoberta às novas técnicas de cura (Planeta, 2018), Jebelli compartilha com o leitor o que aprendeu nessa jornada. O livro impressiona pela abrangência histórica, científica, clínica e até geográfica, já que o autor viaja pelo mundo para tentar montar o painel mais completo possível sobre a doença. Mas impressiona também pela elegância narrativa já presente no primeiro livro de um autor jovem, que aos 31 anos demonstra ter acumulado experiência científica e de vida suficientes para compor um livro tão maduro.