Joaquin Phoenix, no filme

Foto: Warner Bros

O Coringa não tem um transtorno mental. Calma, não é spoiler. Quer dizer, é spoiler, mas do artigo, não do filme. Agora que já entreguei de cara a conclusão, vou logo enfatizá-la: o Coringa não tem um transtorno mental. Citarei breves momentos do filme que não antecipam nada de muito relevante da trama, apenas para sustentar meu ponto. Continuo sem dar spoilers, portanto.

Uma leitura superficial do filme pode inclinar as pessoas a querer colocar na conta da loucura o comportamento criminoso do personagem. Afinal ele é muito estranho, tem alterações claras de comportamento, fala de maneira esquisita, é deslocado no trabalho, isolado na vida pessoal. E ele mesmo acha que é um doente mental, e ainda por cima faz tratamento psiquiátrico. Como venho eu dizer que ele não é doente?

Pois não é. A construção do personagem é feita com pedaços de sintomas que não coexistem num transtorno real. Ele pode ser pueril, como alguém com retardo, mas é capaz de insights poderosos sobre sua condição individual e social. Ele sofre com tal condição, chora, mas sem chegar a ficar realmente deprimido. O que muitos erroneamente descrevem como alucinações na verdade são fantasias que ele cria, nada características de transtornos psicóticos.

Claro que ele não é normal. Meu ponto é que o filme acertadamente escolhe mostrar que tal anormalidade está muito além do alcance da psiquiatria. Tanto é assim que logo no início ele diz para a assistente social que precisa de mais remédios porque não está se sentindo bem. “Você já está tomando sete medicamentos”, responde ela. Ou seja, o problema ali não é páreo para remédios. Além do quê ele melhora quando para as medicações.

Mas nem um psicopata, Daniel? Não. Nem um psicopata. Essas pessoas têm redução marcante na capacidade de vivenciar afetos, apresentam insensibilidade e frieza. E embora o Coringa seja capaz de homicídios a sangue frio ele demonstra ser genuinamente afetuoso com diversos personagens. Seu sofrimento é legítimo.

Como então vamos explicar a maldade que ele encarna? Eis o grande acerto de uma leitura aprofundada do filme: não vamos. Mesmo sua história de vida, sua condição social, a exclusão constante, os maus-tratos, nada disso pode ser considerado condição necessária e suficiente para o surgimento de um Coringa. Gotham City toda está nas mesmas condições e ninguém mais virou Coringa. Ele representa o inexplicável, o incompreensível, o que desafia teorias e classificações. É um personagem menos psiquiátrico e mais existencialista ao nos confrontar com o absurdo da maldade no mundo.

Deixei de fora suas perturbadoras risadas, mas foi de propósito. Elas são tão importantes que merecem um artigo só para elas. Semana que vem.