Depois dos best sellers “Seu chefe é um psicopata”, “Seu amigo é um psicopata” e do campeão de vendas “Seu ex-marido é um psicopata”, chegou a hora de falar a verdade: psicopatas somos todos. Ou podemos nos comportar como um.

Nos últimos dias temos vistos vários sinais de como as pessoas comuns podem agir com desprezo pelos outros, ao menos no mundo virtual. Lúcia Guimarães conta sobre a onda de insultos a Robin Willians, via twitter, depois de sua morte. Por aqui mesmo testemunhamos o mau gosto que se seguiu ao acidente com Eduardo Campos, desde os trocadilhos políticos até as selfies em seu velório. Há pouco tempo Erasmo Carlos se surpreendeu com a agressividade que as pessoas podiam demonstrar on-line, quando debochavam de sua idade. E o aplicativo Secret, no qual as pessoas podem postar qualquer coisa de forma supostamente anônima se tornou um palco de ofensas, boatos, calúnias e difamação. O que acontece, que gente tranquila, que não faz mal a ninguém no mundo real, entra nessas escaladas de agressividade nas redes socais, cometendo até mesmo crimes que não faria em outras situações?

Você já deve ter visto alguém limpando o nariz dentro do carro, tranquilamente tirando “caquinhas” até de repente dar de cara com outra pessoa. Esse momento de constrangimento, que leva o sujeito a inutilmente tentar disfarçar a nojeira, acontece porque o olhar do outro é um potente freio para nossos comportamentos menos louváveis.

Eis o grande problema do mundo virtual: a falta do olhar alheio. Nosso cérebro está adaptado para interagir face-a-face com os outros – nesse tipo de conversa recebemos uma série de informações em tempo real, se estamos agradando, se a pessoa está brava, triste, feliz, e assim ajustamos o conteúdo e também a forma de nosso discurso de forma automática e inconsciente. Isso não apenas porque queremos agradar, mas também porque ver o sofrimento do outro nos incomoda, refreando certos impulsos. Quando não temos esses freios sociais, funcionamos – em parte – como os verdadeiros psicopatas. Essas pessoas têm dificuldade para reconhecer adequadamente as emoções negativas nas expressões faciais; e são incapazes de sofrer quando vêem alguém sofrendo, por carecerem de empatia. Ora, nas redes sociais somos todos assim: não vemos as expressões de nossos interlocutores, tanto pela invisibilidade como pela assincronia do diálogo. E sem esse feedback, não sofremos com a dor alheia, já que não a testemunhamos diretamente.

Creio que essa é a grande razão para tantas pessoas assumirem atitudes antissociais diante de uma tela e um teclado, até mais do que o anonimato. Esse, juntamente com a suposta impossibilidade de ser pego, pode até fazer com alguns ajam com maldade, mas sobretudo os predispostos a isso. É como o escritor H. G. Wells ilustrou em O homem invisível. No livro um cientista se torna criminoso após adquirir invisibilidade, mas sua personalidade já era fria e algo desumana – ser invisível somente o liberou para fazer o que gostaria. O anonimato permite que o sujeito que quer ser ruim, seja. Mas não é ele que vira a cabeça dos bons cidadãos.

Claro que a maioria das pessoas não sofre uma transformação no mundo virtual. Mas não se pode ignorar que essa nova forma de interação humana, na qual o exercício da empatia fica prejudicado, está associada a mais atitudes de desprezo pelos outros. Como acredito na capacidade de adaptação humana, acho que a solução virá com o tempo. Só não sei quanto.