Com um frio na barriga venho a público fazer algo que nunca tentei: uma promessa de ano novo. Para variar, tem a ver com dieta. Só que mais do que uma promessa, trata-se de um experimento: ao longo desse ano pretendo usar o conhecimento científico para melhorar meus hábitos alimentares. Ao longo do caminho prometo publicar os resultados, mostrando sem maquiagem fracassos e sucessos que obtiver, e quais os impactos das mudanças na vida real.

Tudo começou há dois anos, quando li sobre as pesquisas sobre a dieta mediterrânea. Fiquei tão impressionado com a consistência científica dos resultados dos vários estudos (redução dos riscos de infarto, AVC, demência e até depressão) que modifiquei parcialmente meus hábitos alimentares. As recomendações eram quase óbvias: priorizar vegetais e comidas integrais, moderar consumo de carnes, dando preferência a peixes e aves sobre carnes vermelhas, substituir doces por frutas como sobremesas. Usar mais azeite do que outros óleos. À época acrescentei também o iogurte e as castanhas, que não tinha o hábito anteriormente. E claro, não tive dificuldade nenhuma em consumir vinho de forma moderada. Como efeito colateral, emagreci um pouco.

Mas o tempo passou e alguns dos bons hábitos foram se perdendo. Gradualmente fui aumentando a quantidade de carne vermelha, de açúcar, reduzindo um pouco os vegetais e as frutas. Mantive o iogurte, as castanhas, o vinho. E embora não tenha engordado tudo de novo, percebi que meu número de calça, ainda que não tivesse aumentado, já não me conferia o mesmo conforto.

Eu já vinha notando essa piora lenta mas ainda fazia força para me convencer de que não era um problema. Até que li o excelente livro A história do corpo humano, do professor de Harvard Daniel Lieberman, lançando no Brasil ano passado pela Zahar. Analisando a história evolutiva do ser humano, Lieberman mostra como nossas características físicas (e mentais) foram selecionadas ao longo do tempo para nos fazer adaptados a um ambiente totalmente diferente daquele em que vivemos. Essa desadaptação é responsável por boa parte das doenças que enfrentamos hoje, de pé chato a hipertensão, passando por miopia e até insônia. Estudioso de biologia evolutiva, ele é enfático: não existe uma dieta ideal para nossos corpos, pois eles foram sendo moldados ao longo de milênios por pressões evolutivas diferentes conforme os ambientes e a disponibilidade de comida iam mudando (sim, você deve ignorar as modas em termos de regimes). Mas existe uma dieta que é péssima: a nossa. Alimentos processados, de rápida absorção, ricos em açúcares e gordura, em grande quantidade nunca existiram na natureza. Por isso o corpo humano não está adaptado para lidar com essa sobrecarga adequadamente, dando origem a males como diabetes tipo 2, hipertensão, obesidade e as suas decorrências. (Aliás, não fomos feitos para o sedentarismo, também, caso queira sugestão de outra promessa de ano novo).

E assim cheguei à decisão de voltar a caprichar mais em meus hábitos alimentares. Comecei pelo começo e parei para analisar os motivos de ter relaxado na dieta: como eu gosto de salada, frutas, aves e peixe, não podia ser falta de prazer. Percebi que havia uma cadeia de pequenos fatores comportamentais, que se somando lentamente foram me desviando do objetivo. Foi então que achei que, mais interessante do que só retomar a dieta seria fazer desse esforço um experimento público. Assim, ao longo do ano pretendo detalhar quais tipos de dieta têm bases científicas (e qual pretendo seguir), aprofundar a análise sobre seus benefícios, identificar quais as armadilhas caí anteriormente e descobrir técnicas baseadas em evidências para desarmá-las, confessar novos tropeços e comemorar os ganhos práticos.

Vamos juntos?