Ministro da Saúde em entrevista sobre as medidas do governo contra o coronavírus Foto: Sergio LIMA / AFP

 

Viver em sociedade significa abrir mão de algumas coisas para ganhar outras. Eu abro mão da velocidade no trânsito em troca da segurança. Sou proibido de usar a violência física para resolver minhas diferenças com a garantia que outros não possam vir para cima de mim. Enfim, é sempre uma troca.

No dia-a-dia não pensamos muito nesse balanço, mas quando surge um pânico como o que tomou conta do mundo com o coronavírus os desafios impostos para garantir a saúde coletiva trazem à tona alguns dilemas interessantes. A China, por exemplo, confinou cidadãos em razão do risco de contaminação. Brasileiros que estavam na região gravaram vídeos pedindo ajuda, o que mobilizou a opinião pública e pressionou o governo para tomar atitude. Entrou então em marcha um plano para resgatar os brasileiros. A China, afinal, não tem o direito de confiná-los – nós é que faremos isso.

Apesar de não existir lei prevendo a quarentena a proposta é trazê-los em mantê-los isolados até ter certeza de que eles não contaminarão os outros. O fato de não sabermos exatamente quanto tempo dura a fase de contágio é detalhe. Como também é um detalhe tal medida ser imposta a pessoas que sequer sabemos se estão doentes, já que o projeto de lei prevê “restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de contaminação”, sem definir o que faz de uma pessoa suspeita. Basta vir da China? Ou tem que ser da cidade de Wuhan? Se não tiver febre pode ir para casa? Afinal de contas a China já confirmou vinte mil casos. Ainda que todos fossem na cidade de Wuhan (que não são), com tem 11 milhões de habitantes, a chance de a pessoa vinda de lá não estar doente é de 99,82%. Mesmo assim devemos restringir seu direito constitucional de “livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens” (art 5º, inciso XV).

Não estou afirmando peremptoriamente que a quarentena seja injusta. Mas é bom parar e pensar nas justificativas para ela, pois imagine o caos que será quando esses brasileiros, aflitos por serem mantidos presos contra sua vontade, entrarem com liminares judiciais invocando a Constituição e juízes concederem habeas corpus liberando-os para suas casas.

Em pânico tomamos atitudes impensadas, mobilizados pelo medo, de forma praticamente irracional. O que raramente dá certo em cenários tão complexos como o atual.

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Leitura mental

Entrar em debates está na moda, mas saber argumentar é uma arte aparentemente em extinção. Livros acessíveis que ensinem as bases dessa habilidade são portanto extremamente bem vindos. É o caso do Lógica e linguagem cotidiana : Verdade, coerência, comunicação, argumentação (Autêntica, 2019), organizado pelos professores Nílson José Machado e Marisa Ortegoza da Cunha. Inserido na coleção Tendências em educação matemática, a obra vai além do interesse acadêmico no tema e, como diz no título, trata da argumentação no dia-a-dia. Diferenciando conceitos como verdade e coerência, por exemplo, fica claro que não basta que as premissas de um argumento sejam verdadeiras; se ele não for construído de forma coerente sua conclusão será falsa. Coisa de que a internet está cheia.