Foto: divulgação

Nós tendemos a acreditar que o nosso tempo é privilegiado, para bem e para mal. Quando nos focamos nas coisas boas imaginamos que elas nunca foram melhores na história humana. Mas basta olhar para o lado ruim para ter certeza de vivemos o pior dos tempos.

Quando penso em nossa capacidade de dialogar tenho a clara sensação que nunca foi tão difícil promover uma conversar civilizada entre pessoas que discordam entre si. Mas logo me lembro de Lilliput, a ilha mais famosa visitada por Gulliver em suas viagens, aquela das pessoas pequeninas. Lá ocorria uma disputa sectária entre os religiosos que defendiam a regra de abrir os ovos cozidos pelo lado menor e os que interpretavam as escrituras de forma oposta. Ao menos um imperador fora morto numa das várias rebeliões causadas por tal disputa. E olha que o livro foi escrito em 1726. Então no fundo acho que sempre foi difícil conciliar visões opostas. Essa dificuldade talvez só esteja mais explícita.

Defender a difícil arte do diálogo, para mim, é um dos pontos fortes do documentário A terra é plana (Behind the curve), disponível no Netflix. O filme se debruça sobre o “terraplanismo”, movimento crescente nos EUA – com algum reflexo no Brasil – de pessoas que defendem a ideia de que a Terra não é um globo. Para eles a Terra é mesmo plana, e todas as evidências que mostram o contrário são forjadas, mentiras criadas para nos manter nessa ilusão. A NASA teria um conluio com os cientistas do mundo todo, além dos meios de comunicação, TVs, jornais, emissoras de rádio – tudo para sustentar a farsa de vivermos num planeta redondo.

Sim, num primeiro momento todos riem da ideia – inclusive muitos dos terraplanistas entrevistados reagiram assim inicialmente. Mas o mérito do diretor Daniel J. Clark é conseguir abandonar uma postura preconceituosa e pôr-se a conhece-los de fato, para além dos rótulos facilmente pespegáveis a elas. E demonstra grande talento ao nos levar com ele nesse movimento, gerando no espectador empatia pelas pessoas de carne e osso por trás da defesa de tais ideias excêntricas. É gente como a gente – em grande medida – com medos, desejos, paixões; são muito mais complexas do que apenas terraplanistas.

Ao mesmo tempo em que consegue deixar isso claro, o filme não nega a existência de um perfil específico – e parecido – entre os membros do movimento. São normalmente pessoas desconfiadas, com tendências a enxergar sinais e significados em mais lugares do que a maioria de nós, desacreditando de informações oficiais de quaisquer fontes que não se coadunem com a visão que defendem. Todos temos traços paranoicos, com mais ou menos intensidade. Mas eles têm mais.

Isso dá lugar a situações inusitadas, como as disputas internas que existem no movimento. Basta alguém começar a se destacar na mídia, divulgando a ideia, que outros membros passam a desconfiar – não seria alguém infiltrado, querendo distorcer a causa?

É urgente dialogar com essas pessoas, contudo, o que fica muito bem pontuado pelos cientistas entrevistados. Ok, eles parecem estar se esforçando para conter o riso em alguns momentos – o que dá para entender. Mas a mensagem séria é que enquanto tratarmos os terraplanistas apenas como pessoas ignorantes, ou mesmo burras, só os afastaremos da possibilidade de correção de rota. Ao tratarmos a situação como uma batalha, uma disputa, criamos hostilidades de parte a parte e erguemos barreiras intransponíveis para um diálogo. E da Terra plana eles podem caminhar facilmente para outras teorias conspiratórias com impactos negativos reais, como a anti-vacinação.

Como diz o cientistas Lomar Glover numa palestra registrada pelo documentário, essas pessoas têm um espírito científico: são inquisidoras, questionadoras. Precisamos apenas a ensiná-las a aceitar que a refutação é parte do método científico. Mas isso só será possível se conseguirmos sentar para conversar. O que só conseguiremos fazer quando pararmos de nos tratar como inimigos.

***

Leitura mental

As crianças, hoje em dia está claro, também são naturalmente cientistas. Perguntam tudo, testam tudo, não têm tantos pressupostos para embaçar a visão de seus experimentos. Claro que também são naturalmente aventureiras e adoram histórias cheias de aventuras. Se forem engraçadas, então, melhor. Desventuras na ciência – 25 histórias de cientistas ao redor do mundo sobre trabalhos de campo que não deram tão certo… do ilustrador francês Jim Jourdane (Blucher, 2019) tem tudo para agradar as crianças, portanto. Jourdane reuniu depoimentos reais de cientistas de campo, relatando alguma coisa que deu muito errado e acabou sendo muito engraçada. O livro mescla informações interessantes sobre a natureza enquanto apresenta um pouco do trabalho dos cientistas e ao mesmo tempo diverte a molecada. Um bom jeito de alimentar o espírito científico desde cedo.