Polêmicas sempre vêm da ignorância. Por uma questão lógica, se existe um conhecimento claro e certo não há espaço para polemizar. Se há debate é porque uma das partes (ou as duas) não sabe do que está falando.

No caso das acaloradas discussões sobre os diagnósticos psiquiátricos, elas ocorrem também por ignorância. Tanto dos médicos como dos críticos. Essa discussão normalmente têm o seguinte desenho: de um lado um grupo diz que os transtornos mentais são construções sociais, criados pelos médicos, e por isso não teriam validade; na outra ponta os profissionais da saúde dizem que isso é um absurdo, que há diversas provas de que essas doenças “existem” de verdade, são biologicamente identificáveis, e o diálogo descamba para bate-boca. O mais divertido é que os dois lados conseguem estar errados mesmo invocando argumentos verdadeiros. A ignorância que gera o debate aqui não é técnica, é filosófica.

Por isso é mais do quem bem vinda a iniciativa da editora Forense Universitária, que vem lançando a obra de Georges Canguilhem em português. Filósofo de formação, ele posteriormente decidiu estudar medicina, considerando-a um pouco mais “prática”, por assim dizer. Mas como um estrangeiro que traz um olhar renovado quado se muda para um país, uma vez formado médico Canguilhem trouxe para a área uma reflexão profunda e até certo ponto inédita. Sua tese de doutorado deu origem ao livro O normal e o patológico, relançado agora, que deveria ser leitura obrigatória em todas as faculdades de medicina. Provavelmente o debate sobre os diagnósticos psiquiátricos esfriaria bastante.

A genialidade de Canguilhem foi simplesmente ver o óbvio: a doença é não é uma entidade real, com existência por si só, independente do seu contexto. As variações para mais e para menos que a biologia impõe às nossas funções fisiológicas, à nossa anatomia etc. só adquirem o caráter de patológicas quando, na interação daquele ser com seu meio, elas se tornam desvantajosas. Assim, o que seria o normal? Apenas a melhor solução encontrada pela natureza para o ser nas suas condições de vida. “Não existe fato que seja normal ou patológico em si.” afirma ele. “A anomalia ou mutação (…) exprimem outras normas de vida possíveis. Se estas normas forem inferiores, quanto à estabilidade, à fecundidade, à variabilidade da vida (…) elas são ditas patológicas. Se eventualmente essas normas se revelarem, no mesmo meio equivalentes, ou em outro meio superiores, elas serão ditas normais.”

Não é diferente com os transtornos mentais. Todos os critérios diagnósticos de qualquer natureza sempre levam em conta o impacto dos sintomas na vida da pessoa. Assim, não basta apresentar essa ou aquela característica “anormal”, esse ou aquele comportamento “estranho” – o sujeito só é dito doente quando sofre um prejuízo significativo em suas relações pessoais, em seu trabalho, na família. Ora, isso é exatamente o que Canguilhem propõe. E resolve muita polêmica em saúde mental.

Vejamos o caso do déficit de atenção. Os críticos dizem que é um diagnóstico da moda, só inventado pela pressão por desempenho que vivemos. Os médicos provam que há correlações biológicas claras, tanto anatômicos como neuroquímicas, que determinam a menor capacidade atencional. E então, é biológico ou social? Fica claro que são ambos: existe de fato uma variação individual na atenção e concentração, que é determinada biologicamente. Mas de fato é só por conta da sociedade que construímos, do mundo em que vivemos, da forma como as coisas são, que as pessoas com menor tempo de atenção sustentada acabam tendo prejuízos, por vezes bem sérios, em sua vida. Um homem das cavernas ligado nas distrações (e ameças) em volta e não apenas concentrado numa pintura rupestre talvez fosse considerado mais saudável do que o doente.

E agora? Como negar que seja doença? Como negar que seja construída?