Gostei bastante do novo quadro do Fantástico: Phantasmagoria. Com auxílio de um mágico profissional e ouvindo especialistas em diversas áreas, de engenharia a neurologia, o programa é uma mistura de reality show com reportagem investigativa, e promete tratar de diversos fenômenos paranormais frequentemente relatados em nossa cultura. Embora o tom da apresentação queira manter no ar certa dúvida, deixando em aberto se fantasmas existem ou não, o próprio nome do quadro já entrega o jogo. Phantasmagoria era uma técnica de ilusionismo muito famosa na época do Romantismo (quando as pessoas estavam fascinadas pelo oculto, pelo gótico) na qual imagens de esqueletos, espíritos e demônios eram projetadas em paredes, cortinas, na fumaça, dando a impressão – falsa – de um contato com o além. Ou seja, o quadro busca explicações naturais para os fenômenos investigados, mostrando que essas experiências podem no fundo ser apenas “normais”, sem o prefixo “para”.

No primeiro episódio um casarão com fama de mal-assombrado foi monitorado por câmeras, e três voluntários tinham que ficar sozinhos em seu interior, à noite e com as luzes apagadas, usando apenas lanternas. Cada um devia cumprir uma tarefa, como chamar um espírito, procurar vultos nas árvores ou nas escadarias. Durante todo o tempo eles eram filmados e carregavam suas próprias câmeras para registrar o que acontecia. Nem precisa ser esperto para adivinhar que todos ficaram com muito medo, tendo experiências como sentir cheiro de vela ou ter uma “sensação estranha”, mas nenhum espírito foi encontrado cara-a-car. Os especialistas foram então ouvidos, procurando explicações científicas para os fenômenos relatados. No fim, ficou a pergunta: você acredita nos cientistas ou nos fantasmas?

O que aconteceu com o trio bate com o que as pesquisas mostram sobre casas assombradas: o contexto e as expectativas levam as pessoas interpretar fenômenos comuns como sinais do além que esperam encontrar. Estudando quase mil relatos de experiências sobrenaturais descobriu-se que ver uma aparição nítida, de forma clara, é extremamente raro (menos de 1% dos casos). E praticamente só quando se está pegando no sono ou acordando, momento em que é comum haver episódios de alucinações passageiras. Fora isso, em um terço das vezes o que ocorre são visões rápidas, como vultos ou flashes de luz; em outro terço são sons que assustam, como passos ou batidas; e o restante são uma miscelânea, incluindo cheiros, sensações subjetivas, arrepios etc. Além de serem pouco consistentes, outro estudo mostrou como esperar tais sinais torna as pessoas sugestionadas. Vinte e dois voluntários foram levados para um teatro abandonado, metade deles achando que ele estava em reforma, metade que ele era mal-assombrado. As pessoas tinham que anotar qualquer experiência, como odores, barulhos, cenas, que pudessem ser interpretadas como estranhas ou incomuns, e – surpresa – as que achavam que o lugar era habitado por espíritos registraram muito mais fenômenos estranhos do que os outros, em todos os sentidos.

Por isso desejo que Phantasmagoria alcance boa audiência. Se as assombrações nascem da expectativa de encontrá-las, quanto mais as pessoas conhecerem explicações, menos acreditarão em fantasmas. É um quadro que, por trás de toda a pirotecnia inerente à TV, estimula o raciocínio crítico ao colocar em cheque algumas crenças pré-concebidas dos telespectadores. Num programa de TV, popular, domingo à noite, isso é quase sobrenatural.

Pós-escrito – quando escrevi esse post eu ainda não havia sido convidado para participar do quadro – seria elogio em causa própria, o que é muito feio.

ResearchBlogging.org
Lange R, Houran J, Harte TM, & Havens RA (1996). Contextual mediation of perceptions in hauntings and poltergeist-like experiences. Perceptual and motor skills, 82 (3 Pt 1), 755-62 PMID: 8774012
Lange R, & Houran J (1997). Context-induced paranormal experiences: support for Houran and Lange’s model of haunting phenomena. Perceptual and motor skills, 84 (3 Pt 2), 1455-8 PMID: 9229473