Sempre que você entra numa livraria sofre o ataque de uma onda de livros que pulam diante dos seus olhos, exibindo-se como “Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade”; “Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros”; “Livros Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço”; “Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido”; e assim por diante. Essa descrição perfeita, que figura na introdução do romance “Se um viajante numa noite de inverno”, do escritor Ítalo Calvino, é seguida por uma ainda melhor, do sujeito lendo o livro no meio do trabalho: “isso não lhe parece uma falta de respeito? De respeito, entenda bem, não para com o trabalho (ninguém pretende julgar seu rendimento profissional; vamos pressupor que suas tarefas sejam regularmente inseridas no sistema das atividades improdutivas que ocupam boa parte da economia nacional e mundial) mas para com o livro”.

Essa sensação de “ah, então não é só comigo” que temos diante dessas passagens, além de atestarem a fina capacidade de observação do escritor, mostram como o trabalho é mal organizado de forma geral. Na maioria das vezes as pessoas são forçadas a cumprir horários rígidos, independente do que façam nesse tempo (imagine o que Calvino não escreveria em tempos de facebook e youtube), o que lhes engessa a vida e não contribui necessariamente para a produtividade das empresas.

Tentando extrair fatos a partir dessa percepção, um grupo de pesquisadores americanos propôs introduzir um modelo batizado de Ambiente de Trabalho Só de Resultados (Results Only Work Enviroment – ROWE) na sede da Best Buy. Seiscentos e cinquenta e nove empregados passaram a ser cobrados exclusivamente por sua produtividade, flexibilizando seus horários de trabalho, entrada e saída, desobrigando-os até mesmo de pedir para ir embora, se quisessem. Há muito tempo sabe-se que conferir autonomia às pessoas, mesmo que pequena, traz impacto psíquico positivo (e que reduzi-la é um dos fatores mais estressantes que existem), e de fato com tal mudança os funcionários passaram a ter menos conflitos trabalho-família, passaram a cuidar melhor de sua saúde e ganharam inclusive mais tempo de sono, apresentando aumento significativo em suas medidas de bem estar.

Agora, se já não resta dúvida de que permitir que as pessoas organizem seus próprios horários tendo em vista suas tarefas é positivo para os empregados, falta comprovar que também é bom para os empregadores. Supostamente eles faltarão menos e estarão mais motivados, mas os gestores querem ver os números, não palpites. Até que tais evidências surjam, portanto, ainda iremos nos dividir entre um daqueles “Livros Que Você Sempre Fingiu Ter Lido e Que Já Seria Hora De Se Decidir A Lê-los Realmente”, o novo clip da Lady Gaga e uma ou outra tarefa, enquanto não batem as dezoito horas.

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Moen, P., Kelly, E., Tranby, E., & Huang, Q. (2011). Changing Work, Changing Health: Can Real Work-Time Flexibility Promote Health Behaviors and Well-Being? Journal of Health and Social Behavior, 52 (4), 404-429 DOI: 10.1177/0022146511418979