Estou correndo nessa quarentena. Em vários sentidos. Preciso evitar que tanto a cintura como a pilha de livros por ler cresçam de forma incontrolável. Por isso me esforço para correr. Contra o tempo.

Nessa correria tirei da estante o recém lançado Videogame, a evolução da arte (Lote 42, 2020), do jornalista e publisher João Varella. Apaixonado pelo tema, Varella não disfarça sua admiração – o que já fica claro pelo título, aliás, que confere status de arte aos videogames. Mas esse interesse afetivo não atrapalha em nada o desenrolar da obra. Ao contrário, ajuda o autor a temperar sua pesquisa sobre os jogos com a experiência de quem os vivenciou como usuário ao longo dos anos.

O livro é dividido em capítulos dedicados principalmente a um jogo cada um, e seguem em ordem cronológica do seminal Pong ao fenômeno recente Pokemon Go. Tratam-se de ensaios que, se têm nos jogos a temática central, discutem também tecnologia, marketing, mercado consumidor, comportamento humano. Você pode nunca ter jogado Counter Strike ou Guitar Hero (como eu), mas duvido muito que não saiba quem é Pac-Man ou que nunca tenha matado tempo diante dos blocos cadentes de Tetris. Talvez não saiba que um dos esportes mais praticados do mundo hoje em dia é um jogo chamado League of Legends, mas provavelmente já se perguntou se seus filhos (ou você mesmo) não poderia ser considerado um dependente de Candy Crush.

De fato os jogos se tornaram elementos integrantes de nossa cultura assim como a literatura ou o cinema. Já há alguns anos essa é a indústria mais lucrativa do entretenimento, envolvendo não só departamentos comerciais gigantescos, mas também equipes de ilustração, programação, fotografia, composição musical, roteiro – tudo que boa parte dos não jogadores sequer imagina que esteja por trás dessas produções milionárias. Daí a pertinência do livro.

E se parece fútil falar de joguinhos em tempos de pandemia, nada mais longe da verdade. Um dos grandes riscos emocionais quando as mortes abundam ao nosso redor é o desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático – uma desregulação do sistema de alerta que perpetua o sofrimento de quem vivencia situações de morte ao tornar muito intensas as memórias da ameaça. Pois vários estudos já mostraram que jogar Tetris pode ajudar a prevenir o problema. Os protocolos de intervenção variam, mas de forma geral eles devem ser implementados nas horas seguintes ao trauma. As pessoas expostas a tais situações devem relembrá-las e na sequência se concentrar no jogo. A teoria é que como a memória é moldável, quando o paciente recorda algo ele torna a memória passível de ser alterada. Mas como ele se engaja no jogo imediatamente após a lembrança, a recordação torna-se então mais fraca, aliviando sintomas.

Entretenimento, arte e agora terapia. Realmente passou da hora de os videogames serem tratados com a seriedade que merecem.