Você está em seu caminho nem sempre tranquilo pela cidade quando começa a sentir uma coisa estranha – parece que tem algo querendo se mexer dentro de seu peito, dando uns pulos que, embora não sejam de todo desagradáveis, dão uma sensação esquisita. Alguns segundo depois você ouve um ruído grave ritmado, tum, tum, tum, e a sensação fica mais forte. É só então que você toma consciência que vinha se aproximando de um carro com volume no máximo, tocando uma música tão alta em volume como grave em frequência. Tum, tum, tum – o som parece ao mesmo tempo penetrar seu crânio e brotar do seu peito. Conforme o carro se afasta a pergunta permanece: por que nesses casos a música nunca é boa?

Eu desenvolvi uma teoria. Elitista, confesso. Mas vá lá: apreciar música boa depende de boa educação. Pense em qualquer coisa mais complexa que a gente aprende a desfrutar na vida – há sempre uma fase de estranhamento até chegar ao prazer genuíno. Para passar do suco de uva de caixinha ao vinho tinto seco há uma curva de aprendizado. O vinho pode ser muito mais prazeroso, mas para quem não aprende o suco de uva sempre parecerá melhor. A mesma coisa acontece com a música. Só gosta de Miles Davis, Mozart, João Gilberto ou Ravi Shankar quem passou por um processo de sofisticação dos sentidos que normalmente vem junto com uma boa educação. E pessoas bem educadas geralmente aprendem também a respeitar o espaço alheio. Logo, se alguém  invade o espaço dos outros para impor seu gosto, normalmente é um mau gosto. (Eu falei que era elitista; mas em minha defesa ela não está relacionada à classe social e sim à educação).

Mas fui atrás de outras respostas e descobri que não é só isso. A música alta, ritmada e marcada pelos sons graves mexe diretamente com nosso cérebro, sendo por si só recompensadora. O volume acima de 90 decibéis (o que é alto, próximo a um liquidificador em potência máxima), estimula diretamente nosso sistema vestibular, que controla equilíbrio e movimento, sem sequer precisar passar pelo ouvido [1]. E estímulo vestibular é algo que a gente curte em qualquer idade: do bebê que chora para ser embalado à criança que se acaba no gira-gira, das montanhas russas na juventude à cadeira de balanço na terceira idade, sacudir o corpo traz sensações agradáveis, como bem-estar, excitação e energia (dependendo da intensidade e do eixo de rotação) [2].

Só que não para por aí. Os tons graves são especiais por transmitir uma sensação de poder. (Pense na Marcha Imperial, de O Império contra-ataca). E essa sensação é contagiante: comparando atitudes de voluntários expostos a músicas idênticas com ou sem os graves, os primeiros apresentavam mais comportamentos típicos da quem tem sensação de poder elevada, como se sentir mais no controle e querer agir antes dos outros [3].

Então está aí. As pessoas ouvem aqueles pancadões no último volume porque se sentem bem. Aumentam sua energia, sua disposição, seu bem estar, ficam se achando poderosas. Mas isso não exclui minha teoria. Até porque existem músicas com ritmos marcantes e tons graves mas que são bastante complexas. O rock progressivo está cheio de exemplos – e por mais barato que ouvi-las no talo possa dar, eu nunca ouvi uma delas vinda dos porta-malas abertos por aí.

Porque quem tem educação sabe que, por mais que esteja podendo, não pode tudo.

 

1 – Todd NP, Cody FW. Vestibular responses to loud dance music: a physiological basis of the “rock and roll threshold”? J Acoust Soc Am. 2000 Jan;107(1):496-500. 

2 – Winter L, Kruger TH, Laurens J, et al. Vestibular stimulation on a motion-simulator impacts on mood States. Front Psychol. 2012;3:499. Published 2012 Nov 20. doi:10.3389/fpsyg.2012.00499

3 – Dennis Y. Hsu et al. The Music of Power: Perceptual and Behavioral Consequences of Powerful Music. Social Psychological and Personality Science, August 2014