A humanidade não chegou a quase 7 bilhões por causa do amor, ouvi certa vez. Tem sentido, mas será que os filhos são meros efeitos colaterais indesejáveis do comportamento sexual?

A pergunta é válida, porque ter filho não é essa alegria toda que aparece nos comerciais de fralda. O vídeo Papai (assista), do Porta dos Fundos, capta bem o espírito ambíguo da experiência da paternidade – o balanço entre os custos de se ter um filho e a alegria que ele traz não é uma conta óbvia. Ela só é simples quando não pensamos nela. Seria mesmo o balanço positivo?

Não é de hoje que os cientistas sociais buscam uma resposta. No começo dos anos 2000 pipocaram estudos mostrando que ter filhos era um fardo: alegria, satisfação com a vida, qualidade do relacionamento, tudo seria atrapalhado pelas crianças. Obviamente tais resultados não foram recebidos tranquilamente: quem tem coragem de dizer que um nenê lindinho traz infelicidade? Bem, talvez quem tenha que trocar fraldas de cocô, acordar de madrugada, lutar para dar comida, enfrentar doenças, contornar birras, pagar escola. Quando se faz a lista da carga que é ter um filho, o surpreendente é que nos surpreendamos com esses resultados.

“Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo”

Escreveu Vinícius de Moraes no Poema Enjoadinho.

Mas ainda assim, quando pensamos no assunto tendemos a acreditar que as crianças trazem alegria. Algo de bom deve haver nessa aventura, afinal. Vinícius sabia disso também:

“Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!”

Contudo, apesar dessas alegrias serem muito intensas – quando começam a falar papá, quando aprendem a andar, quando cantam para os pais embasbacados na escola – elas não são diárias. Daí o contraste: quando se pensa de forma abstrata na paternidade o que vem à mente são esses momentos, justamente por serem marcantes. Mas no dia-a-dia a molecada não está vestida de marinheiro mandando beijo de cima do palco. Está precisando de banho, comida ou disciplina.

Então, no final da década, novas análises foram feitas e se descobriu que os dados não estavam bem interpretados. Na verdade a qualidade de vida das pessoas caía depois dos filhos, mas entre pessoas casadas ela aumentava. Aparentemente o problema não era ter filho, mas tê-lo num contexto em que as coisas deram errado: o casamento acabou, a gravidez não foi planejada, alguém enviuvou e assim por diante. Os pequenos não seriam o peso, apenas um amplificador: se a vida está boa, eles a melhoram; se não, caldo pode entornar de vez com a chegada de um bebê. Parecia uma explicação definitiva, até que esse ano novos achados foram publicados: a questão não é estar ou não casado, mas o quanto a sociedade em que se vive valoriza esse ponto. Em países nos quais não há uma norma tão rígida sobre a família biparental não se encontrou piora na felicidade de quem tem filhos e não é casado.

Então, para resumir (muito) o que se sabe – até aqui, pelo menos: ter filhos traz alegria para quem encontra suporte. Seja do cônjuge, seja da comunidade. Eu costumo dizer que as crianças dão o mesmo tanto de trabalho e alegria, (geralmente muito de cada um). E quando temos companhia, multiplicamos a satisfação e dividimos o fardo. Por isso o balanço acaba sendo positivo no final. E acho que Vinícius de Moraes concordaria:

“Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!”

ResearchBlogging.org
Hansen, T. (2011). Parenthood and Happiness: a Review of Folk Theories Versus Empirical Evidence Social Indicators Research, 108 (1), 29-64 DOI: 10.1007/s11205-011-9865-y
Angeles, L. (2009). Children and Life Satisfaction Journal of Happiness Studies, 11 (4), 523-538 DOI: 10.1007/s10902-009-9168-z
Stavrova, O., & Fetchenhauer, D. (2014). Single Parents, Unhappy Parents? Parenthood, Partnership, and the Cultural Normative Context Journal of Cross-Cultural Psychology, 46 (1), 134-149 DOI: 10.1177/0022022114551160