Foto Ernesto Rodrigues/Estadão

Há tantas camadas de leitura no caso do médium João de Deus que é difícil escolher por onde começar. Em minha coluna no caderno Metrópole dia 16 de dezembro comecei falando sobre as mulheres que sofreram abusos e estupros – elas normalmente experimentam um enorme conflito interno, marcado por culpa e vergonha. No dia seguinte, durante entrevista para o podcast Estadão, o Emanuel Bonfim me fez uma pergunta que se tornou o mote da reflexão de hoje – por que muitas pessoas ainda defendem um homem acusado de se aproveitar da fé e da fragilidade de centenas de mulheres para delas abusar?

Porque é difícil mudar de opinião. Uma vez que formamos uma impressão inicial nós adotamos aquele ponto de vista, e em cada oportunidade que temos nós o reforçamos, criando um círculo vicioso de convicção. Nada contra as convicções, são elas que movem o mundo. O problema é que nem sempre na direção certa.

Se isso acontece com opiniões prosaicas do dia-a-dia, com inclinações políticas, com agremiações desportivas de nossa preferência, imagine quem passou a vida acreditando que aquele homem tinha uma missão espiritual, o poder de canalizar o contato com o divino para curar doentes. O povo que agora o defende (espontânea e gratuitamente, claro, não seus advogados) é gente que há anos vem estruturando sua vida em torno da imagem do médium bondoso, abnegado. Uma imagem incompatível com a de um estuprador. A nova realidade destrói tudo o que essas pessoas acreditaram ao longo dos últimos anos, ameaçando em última análise sua própria identidade. “Eu não sou o tipo de gente que idolatra um estuprador. Se ele for estuprador não saberei mais quem sou. Então ele deve ser inocente”, raciocina-se.

Esse dilema é tão intenso que gera um conflito emocional muito forte nas pessoas – elas são as outras vítimas de João de Deus. Pessoas que foram enganadas, levadas a crer em uma bondade que hoje se revela fachada para uma enorme maldade, lançando-as num turbilhão de negação, culpa e hostilidade. Há notícias de que a cidade está em pé de guerra entre os que o defendem e os que o acusam.

A principal mensagem, creio, é tranquilizar as pessoas que só conheceram sua face bondosa que ele ser culpado não faz delas cúmplices, não as torna ruins por procuração. Na época ele parecia bom. Mas provadas as acusações é saudável ter a coragem de atualizar as convicções. Ou o preço emocional futuro poderá ser ainda maior.

 

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Leitura mental

A espiritualidade – e sua relação com o cérebro – está no centro do livro A mente de Deus, do neurologista Jay Lombard (Cultrix, 2018). Quem espera encontrar a prova científica de que Deus existe, os exames de neuroimagem flagrando nossa alma em ação ou a evidência inquestionável da existência de livre-arbítrio pode acabar se frustrando. Lombard tem coragem de abordar esses temas – por definição refratários à investigação científica – menos para trazer provas materiais do que é imaterial, e mais para mostrar como a espiritualidade é uma maneira de dar sentido à nossa existência. Sejam as crenças verdadeiras ou não.