Começa na 4a feira, 28 de novembro, a 20a. edição da Festa do Livro da USP. Não tenho certeza se descobri esse tesouro já em sua primeira edição, em 1999, ou no ano seguinte, quando eu estagiava no Hospital Universitário durante o sexto ano da faculdade de Medicina. Mas lembro claramente como me senti na primeira vez que vi tanto livro reunido com tanto desconto junto. Era uma sensação de deslumbre, uma euforia misturada com a ansiedade de não saber lidar com aquela abundância. Já lá se vão vinte edições, e todo ano estou lá, precisando ou não.

A relação da humanidade com os livros é muito interessante. A partir do momento em que eles se popularizaram, tornando acessível o conhecimento a quem quisesse, tornaram-se praticamente objetos sagrados. Tenho amigos que não conseguem os grifar enquanto leem, por exemplo, sentindo-se como se estivessem profanando as imaculadas páginas. Outros são incapazes de jogar fora um tomo que não preste, supremo pecado. Fora a sensação quase universal, entre os leitores, de que é falta de respeito abandonar um livro pela metade.

Claro que com tal força simbólica e com tanto poder de gerar ideias eles se tornaram também alvo de medo, ódio e censura. A história real e a ficção científica são repletos de exemplos de listas de censura, fogueiras de livros, banimento, perseguição, de todos os lados. Religiosos proibindo livros profanos, sociedades vetando livros religiosos, ditadores impondo suas bibliografias. Para quem quer controlar as narrativas é muito perigoso deixar os narradores circular livremente.

Uma consequência natural da elevação do livro a objeto de culto é o surgimento dos templos a eles dedicados, chamados bibliotecas. Públicas ou particulares, organizadas ou não, sua origem remonta aos longínquos tempos pré-internet, quando reunir o conhecimento dependia de espaço físico, não apenas virtual. Sem um livro para consultar não havia meios de se adquirir informação. Por isso que até hoje alguns de nós lutam com a certeza de que, para aprender algo, é preciso ter um livro. E pior: muitas vezes invertemos essa lógica e achamos que comprar um livro é sinônimo de aprender. E assim vamos acumulando pilhas e mais pilhas. Na esperança de um dia lê-los ou na certeza de que um dia precisaremos deles.

De fato, de vez em quando preciso de uma informação que, embora pudesse ser encontrada com dois cliques no mouse, encontro-a muito mais bem trabalhada e embasada num dos livros da minha estante. Há livros que consultei poucas páginas e que já cumpriram seu destino em minhas mãos. E há outros que aguardam pacientemente em seus nichos seu momento de brilhar. Umberto Eco defendeu a presença de uma multidão de livros não lidos em sua biblioteca: “Não li nenhum, de outra forma por que os teria aqui?”. Tornou-se o herói dos acumuladores.

A grande dificuldade torna-se escolher o que ler. Pois ao decidirmos nos dedicar a um título estamos abrindo mão de um número cada vez maior de opções. Como o custo do que fazemos é tudo o que deixamos de fazer, por vezes a aflitivo deixar de ler tanta coisa para ler uma só. Mas não importa. Amanhã estarei lá. Sacolas prontas. Cartão em punho.

Estantes, abram espaço! Novembro chegou.

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Leitura mental

Com estreia programada para começo de dezembro, na Netflix, o filme Dumplin’, produzido estrelado por Jennifer Aniston, é a adaptação do livro homônimo, da escritora Julie Murphy (editora Valentina, 2018). Dumplin (aqueles bolinhos feitos de farinha) é o apelido pelo qual a ex-miss Texas, Rosie Dickson, chama a filha Willowdean Dickson. Ela é o oposto da mãe – obesa e indiferente à aparência – mas ao se envolver com um dos galãs da escola ela sente sua segurança fraquejar. Resolve então, para espanto e constrangimento de sua mãe, entrar no concurso de miss. Para quem acha que bullying é frescura ou que gordofobia é só outro mimimi, é uma excelente maneira de enxergar essas situações com os olhos de quem as vê de dentro. E para quem luta por aceitação, é um belo exercício de otimismo.