Há pouco mais de um ano comentei nesse espaço que estava fazendo natação – e gostando muito. Agora, com dois anos de prática, acabou a lua-de-mel. No momento estou usando o impulso da paixão inicial para construir uma história de amor a longo prazo. E só quem já trilhou esse caminho sabe o esforço necessário para transformar picos de euforia em satisfação contínua. Continuo nadando entre duas a três vezes por semana, mas agora acho que sou capaz de fazer um relato menos romântico dessa atividade física.

Constatei na prática o que sempre soube em teoria: como a maioria das pessoas não gosto de fazer exercício. É algo que exige esforço, cansa e ainda nos rouba tempo de outras coisas que poderíamos estar fazendo. Mas por que continuo? Porque os benefícios são inegáveis. Melhorei meu fôlego, entrei em forma, ganhei massa magra e provavelmente algum tempo de vida. O aumento de bem estar é claro, o estresse diminuiu e o sono melhorou. E meu caso não é exceção. Na década de 1980 os impactos da natação foram estudados em voluntários saudáveis que deveriam preencher um perfil sobre o estado de humor antes e depois dos seus treinos. O questionário trazia perguntas sobre  tensão, depressão, raiva, confusão mental, vigor e fadiga – e todos, exceto a fadiga, apresentaram melhora significativa ao final do exercício. Independente do grau de experiência dos nadadores.

O grande problema é que esses benefícios aparecem apenas depois de pagarmos o preço de vencer a preguiça. Muitas vezes adiamos a decisão de começar a fazer atividade física por não enxergarmos o bem estar que se esconder por trás do cansaço e as dores. Mesmo agora que estou engajado com a natação não é raro que na hora de ir para a piscina bata aquela preguiça, roubando a motivação. A chave do sucesso está em contornar essa miopia emocional.

No começo da década de 2010 pesquisadores canadenses mapearam o estado emocional de voluntários engajados em atividades físicas. Inicialmente pediram para eles darem um palpite sobre quanto achavam que o treino seria bom, de 0 a 10. Terminada a prática perguntaram quanto eles gostaram de fato e viram que as notas eram melhores. Nós superestimamos o lado ruim da atividade física por causa da visão curta. Nos focarmos no preço a pagar – que vem antes – e esquecemos dos benefícios – que vêm depois.

Resumindo: a gente não gosta de treinar; o que gostamos é de ter treinado. As pessoas que se mantém ativas não o fazem porque amam as dificuldades inerentes aos hábitos saudáveis, mas porque conseguem esticar um pouco a visão, focando no prazer posterior.

Pensando bem, não assim para tudo o que é bom? Porque se há uma regra nessa vida é que nada que vale a pena traz recompensa antes do esforço.

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Leitura mental

Reconhecer nossas respostas emocionais é o primeiro passo para lidar melhor com elas. Como elas nos acompanham desde sempre o tempo todo – alegria, tristeza, angústia, medo, excitação – na maior parte do tempo nós nos identificamos com elas, deixando que elas definam nosso estado. Para a psicóloga Susan David, da faculdade de medicina de Harvard, identificar nossos padrões, nomeando as emoções e pensamentos que tentam nos enredar, é o caminho para aceitá-los e modificar nossas atitudes de acordo com nossos próprios valores. Essa habilidade ela chama de Agilidade emocional, título do seu novo livro, recém-lançado em português (Cultrix, 2018). Contando com extensa pesquisa e em linha com técnicas de manejo do estresse baseadas em evidências, David ajuda o leitor a aplicar no seu dia-a-dia as recomendações da ciência para o bem estar.