Quase tudo tem um lado bom. Existem exceções, mas o atual processo de exposição pelo qual passa Faculdade de Medicina da USP não é uma delas. Refiro-me às denúncias de estupro e violência contra estudantes nas festas da faculdade, discriminação contra alunos homossexuais e racismo, que já vinham aparecendo e ganharam força depois do inquérito aberto pelo Ministério Público Estadual. Acredite, isso tem um lado bom.

Alguns se espantam que a violência possa ser “institucionalizada” na mais renomada faculdade de Medicina do país, pioneira em tantas áreas e que forma boa parte da elite médica nacional. Outros lamentam o fato de ela ser exposta. Só que, infelizmente, não é de se espantar – a violência é entranhada na vida universitária não só no Brasil, como em todo o mundo. Em especial nas escolas médicas – e expôr isso talvez seja a melhor, senão única, maneira de tratar o problema.

O estupro de alunas é um crime extremamente comum. As estimativas variam, mas no cenário mais conservador atinge 2% das mulheres e no mais assustador até uma em cada quatro estudantes americanas. Após ser negligenciado por décadas, há alguns anos vem sendo progressivamente mais reconhecido e combatido, sobretudo nos Estados Unidos, desde a organização em 2011 do “novo movimento anti-estupro no campus”. Esse ano a estudante Emma Sulkowicz, da Universidade de Columbia, chamou a atenção do mundo ao carregar seu colchão por onde vai, colchão em que foi estuprada no primeiro dia de aula, após tentar inutilmente convencer os professores e administradores de que fora vítima de um crime. Também em 2014 a Califórnia mudou as leis vigentes nas Universidades – agora, quem cala não consente: não basta a mulher deixar de oferecer resistência – se ela não consentir explicitamente com o ato sexual, pode ser estupro. Impossível não relacionar as ondas geradas por esse movimento ao que agora ocorre no Brasil. E espanta pouco que faculdades de ponta sejam as primeiras a exibir esses sinais, não só por serem mais estreitamente ligadas ao que acontece no exterior, como por congregarem alunos de alto potencial crítico e intelectual.

No caso das escolas médicas, em especial, a violência é de fato institucionalizada. O tema é alvo de estudos mundo afora há décadas, e os números são significativos. Para que se tenha uma ideia, levantamento feito em dez faculdades médicas dos EUA mostrou que praticamente todos os alunos foram submetidos a maus-tratos de alguma espécie, 86% deles sendo pelo menos uma vez humilhados publicamente e 81% tendo ouvido gritos ou xingamentos de médicos mais velhos ou residentes. E mais da metade já se sentiu sexualmente assediado. Mesmo no mar de civilidade da Escandinávia, em sua formação o médico vivencia mais hostilidade que os demais alunos. Comparando as ocorrências de humilhação, assédio, punições excessivas ou desproporcionais em alunos finlandeses de Medicina, Humanidades, Educação, Tecnologia e Ciência, os futuros médicos sofriam mais do que os outros em todos os parâmetros avaliados, às vezes com taxas até quatro vezes maiores (como receber tarefas com propósito de punição, não de aprendizado). E até no pacato Canadá demonstrou-se o paradoxo de que todo mundo reconhecia a intimidação e o assédio em duas faculdades de medicina, mas tendiam a racionalizar esse fenômeno como “necessário”, “benéfico” ou “justificável”.

Por isso, saber que a Faculdade de Medicina da USP registra ocorrências de violência, estupro, racismo e homofobia é lamentável, mas não chega a ser surpreendente. Diante dos dados, parece que quase todas as faculdades mantém alguns desses esqueletos em seus armários. Mas se a instituição souber honrar a atitude de seus alunos que ousaram denunciar uma cultura de violência para trabalhar em sua modificação, isso que hoje parece exposição e humilhação só reforçará sua vocação para o pioneirismo.

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