foto: Pablo Pereira/Estadão

A tragédia sem precedentes ocorrida em Brumadinho é daquelas notícias que nos desafiam a escolher as palavras. Tem-se a sensação de que não falar nada é tão errado quanto tentar falar alguma coisa. Consolar parece impossível. Acusar parece fácil. Enviar pensamentos positivos parece inútil. Quem não perdeu nem está ajudando a encontrar alguém tem pouco o que dizer.

No entanto é cada vez mais comum buscar a opinião de profissionais de saúde mental para planejar intervenções voltadas aos sobreviventes e parentes de vítimas de tragédias. O que deve ser feito, o que ajuda se dito, o que pode ser prescrito. Essa talvez seja uma pequena contribuição que podemos realmente dar.

Durante muito tempo se acreditou que era importante fazer as pessoas falarem sobre o que estavam sentindo, repassar o que havia acontecido, colocar para fora seus pensamentos numa consulta realizada nos dias seguintes ao trauma. Essa estratégia conhecida como debriefing psicológico tem muito apelo intuitivo, pois nós ainda vemos a mente como uma panela de pressão que precisa aliviar sua carga. No entanto, como essa visão da mente humana é equivocada, essa técnica não tem resistido às pesquisas científicas. Quando testada formalmente ela se mostra ineficaz, e às vezes prejudicial, para as pessoas. Tanto que não é recomendada pela Organização Mundial de Saúde.

O mesmo se pode dizer de alguns remédios. Os tão populares Rivotril, Valium, Lorax e outros benzodiazepínicos são extremamente eficazes para reduzir sintomas de ansiedade – não por acaso são chamados de calmantes. Seu uso, contudo, embora pareça fazer sentido, não vem mais sendo indicado, pois eles podem até mesmo aumentar o risco de adoecimento. Como dormir é uma forma de solidificar memórias, o sono induzido por tais remédios eleva a chance de as memórias traumáticas se consolidarem, levando ao estresse pós-traumático.

Mas há algo que é praticamente unanimidade entre os estudos em vítimas de traumas e tragédias: a percepção de suporte social é um dos fatores de maior proteção para o sofrimento imediato e o adoecimento posterior. Ao sermos expostos a um perigo excepcional ou a uma perda trágica, o cérebro nos coloca num alerta extremo para nos proteger de riscos. Diante do inesperado, a sensação de insegurança é paradoxalmente uma forma de tentar ficar seguro. Essa sensação, contudo, está por trás dos sintomas tanto da reação aguda ao evento como do estresse pós-traumático posterior. Mas se a pessoa sente que está recebendo suporte social, proteção, amparo e acolhimento, esse alerta é gradualmente reduzido, dada sua percepção de segurança, diminuindo os riscos de adoecimento.

Também parece intuitivo. Oferecer ativamente ajuda e consolo a quem sofre faz parte dos rituais mais antigos da humanidade. A diferença é que, ao contrário de outras formas de ajuda que parecem fazer sentido, essa vem tendo sua eficácia cientificamente comprovada.

Não que precisássemos de mais argumentos para ser solidários.

 

Badari Birur, Suresh Bada Math, and Rachel E. Fargason. A Review of Psychopharmacological Interventions Post-Disaster to Prevent Psychiatric Sequelae. Psychopharmacol Bull. 2017 Jan 26; 47(1): 8–26.  

Lui A, Glynn S, Shetty V. The interplay of perceived social support and posttraumatic psychological distress following orofacial injury. J Nerv Ment Dis. 2009 Sep;197(9):639-45. doi: 10.1097/NMD.0b013e3181b3b127.

Oe M, Maeda M, Nagai M, Yasumura S, Yabe H, Suzuki Y, Harigane M, Ohira T, Abe M. Predictors of severe psychological distress trajectory after nuclear disaster: evidence from the Fukushima Health Management Survey. BMJ Open. 2016 Oct 19;6(10):e013400.

https://www.who.int/mental_health/mhgap/evidence/resource/other_complaints_q5.pdf