Foto: Gregorio Borgia/REUTERS

Certa vez li que a Argentina era um dos países em que os filmes do Woody Allen ficavam mais tempo em cartaz. Uma das razões, estimava-se, é a paixão de nossos vizinhos pela psicanálise. Os temas psicanalíticos são abundantes na obra do cineasta, seja como inspiração, seja como piada, e a Argentina tem uma das maiores concentrações de psicanalistas do mundo. Em Buenos Aires existe um bairro com tantos consultórios que ficou conhecido como Villa Freud. Sendo tão fãs de Freud os portenhos acabam por turbinar a bilheteria de Allen.

Essa paixão toda se explica em parte pela importância que a psicanálise teve como forma de tratamento psiquiátrico no país. E por conta disso até hoje há uma ligação – mais forte do que no Brasil, por exemplo – entre psiquiatras e psicanalistas no imaginário popular. Atualmente as pessoas não me perguntam mais se eu uso divã quando digo que sou psiquiatra. Embora já tenha ouvido muito isso no passado, o brasileiro hoje sabe que psiquiatra não é necessariamente psicanalista; e vice-versa. Na Argentina aposto que ainda teria que explicar para mais gente.

Refreie seu ódio por um momento, então, quando ler uma manchete nas redes sociais dizendo que o papa mandou homossexuais se tratarem. A internet foi tomada de manifestações ontem, condenando-o por conta de uma fala divulgada no último domingo. A notícia inteira é a seguinte: perguntado o que pais deveriam fazer ao notar tendências homossexuais em seus filhos, Francisco respondeu que  “Diria a eles, em primeiro lugar, que rezem, que não os condenem, que dialoguem, entendam, que deem espaço ao filho ou à filha. Quando isso se manifesta desde a infância, há muitas coisas para fazer por meio da psiquiatria, para ver como são as coisas. Outra coisa é quando isso se manifesta depois dos 20 anos”

Sim, juntar psiquiatria e homossexualidade na mesma frase é um erro. Tanto o Vaticano compreende ser errado que retirou do ar essa parte da resposta. (Se o papa realmente acreditasse que a essa orientação sexual fosse patológica sustentaria a declaração). E é um erro por vários motivos. Porque homossexualidade – finalmente a sociedade compreendeu -não é uma doença. Mas também porque considerá-la assim ao longo da história serviu de justificativa para que muitas pessoas sofressem estigma, tratamentos forçados, até mesmo internações involuntárias para serem curadas. E porque o tema ainda é tão sensível que frequentemente ressurge na figura de profissionais propalando alguma “cura gay”. Ignorância e obscurantismo.

Mas conhecendo as relações entre a Argentina e a psicanálise, sabendo que o papa Francisco é argentino, ciente de suas manifestações prévias favoráveis ao público LGBT,  levando em conta que suprimiu-se essa declaração, e mais do que tudo lendo a frase toda, me parece claro que ele não estava condenando ou julgando os homossexuais. É uma fala de tolerância e amor. Mas então por que misturar nela a psiquiatria?

Fácil. Porque num mundo em transição nas questões da sexualidade mas ainda intolerante, uma criança que se acredite homossexual precisará sim de ajuda para compreender a si mesma e caminhar na direção que bem lhe aprouver. É evidente, para qualquer um de boa fé, que a situação é diferente de quando um adulto se sabe homossexual. Quem, senão profissionais como psicólogos e terapeutas, estão mais indicados para dar essa ajuda à criança e à família para “ver como as coisas são”, como disse o papa? Acredito ser bem claro que era apenas a isso que ele estava se referindo.

A dificuldade é que há de se gastar uns bons minutos pensando sobre a situação para se chegar a essa conclusão. São precisos alguns parágrafos para montar esse raciocínio. Ler a manchete e compartilhá-la com uma ofensa dá muito menos trabalho – e muito mais repercussão em sua bolha social. Principalmente para quem já tem a opinião pronta antes do fato sequer acontecer.

Mas esses nem chegarão até essa parte do texto.

 

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Leitura mental

Se você lembra alguma coisa das aulas de biologia do ensino médio, possivelmente seja a história do Aa, AA, aa da genética, descoberta pelo monge Gregor Mendel em suas experiências com ervilhas. No livro Cientistas de batina (Ecclesiae, 2018) o historiador Francesco Agnoli e o médico Andrea Bartelloni mostram que as relações entre o conhecimento científico e a fé foram muito além de Mendel ao longo da história. Eles reúnem descobertas como a teoria heliocêntrica de Copérnico (clérigo católico), a da expansão do universo de Georges Lamaître (jesuíta), além de avanços na eletricidade, eletromagnetismo, botânica entre outros, mostrando como religiosos aplicaram – independente de sua fé – o método científico e o pensamento racional para fazer do mundo um lugar melhor. Objetivo que deveria nortear tanto sacerdotes como cientistas.