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Eu não recebo dinheiro da indústria farmacêutica, não sou ligado a nenhum laboratório e sou também dos que acham que existe uma pressão para a venda de medicamentos em geral, e medicamentos psiquiátricos em particular, aproveitando-se da intolerância das pessoas ao sofrimento. Quando eu ainda era aluno ouvi o ilustre professor György Böhm chamar esse fenômeno de “sociedade do analgésico”, já que, para ele, desde que se tornara fácil aliviar as dores as pessoas vinham se tornando progressivamente mais incapazes de lidar com o sofrimento.

Apesar de tudo isso não acho que os números de aumento de venda dos calmantes, relatados pela Folha, sejam unicamente negativos. A reportagem mostrava que o clonazepam teve um incremento de 36% nas vendas entre 2006 e 2010, sendo hoje o Rivotril o segundo remédio mais vendido no país. A partir daí a matéria destacava que há exagero na prescrição desse remédio (e de calmantes em geral), que é um problema o médico não psiquiatra prescrevê-los, e que as pessoas estão abusando do seu uso.

Sim, há indicações erradas e abusos. Frequentemente recebo no consultório pacientes que tomam calmantes sem precisar. Mas há que se lembrar que a prevalência de transtornos mentais é muito alta, e que a melhora das condições econômicas e o progressivo desenvolvimento do país inevitavelmente aumentam o acesso da população a atendimento médico para tratar de problemas até então ignorados.

Num dos maiores e mais bem feitos levantamentos epidemiológicos do país, os pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do HC (USP), aplicaram instrumentos padronizados e rigorosos para o diagnóstico de transtornos mentais de acordo com a Classificação Internacional de Doenças em quase 1500 pessoas na cidade de São Paulo. Descobriram que perto de metade (45,9%) delas apresentava pelos menos um diagnóstico psiquiátrico no último ano (aí incluindo tabagismo, o que elevou os números). Para transtornos de ansiedade, indicação bem comum de calmantes, 12,5% dos entrevistados preenchiam critérios. Se os números forem minimamente representativos de taxas nacionais, estamos falando de quase 24 milhões de brasileiros com ansiedade patológica (e não meramente ansiosos), que poderiam se beneficiar do uso de calmantes. E com tanta gente precisando, já é mais do que sabido no mundo inteiro (inclusive aqui), que o tratamento não pode ser exclusividade dos psiquiatras, por absoluta incapacidade de os especialistas darem conta de tal demanda.

Conclusão: com certeza há muita gente que abusa de calmante ou toma o famoso Rivotril sem precisar. Mas o aumento das vendas não deve ser só por prescrições indevidas, refletindo também o maior acesso ao remédio de pessoas que realmente precisam dele.

ResearchBlogging.org Andrade L, Walters EE, Gentil V, & Laurenti R (2002). Prevalence of ICD-10 mental disorders in a catchment area in the city of São Paulo, Brazil. Social psychiatry and psychiatric epidemiology, 37 (7), 316-25 PMID: 12111023