Uma das piores consequências da depressão é o estigma que a cerca.

Claro que a angústia que a acompanha pode ser enorme, mas depressão não é a mesma coisa que tristeza. Os pacientes costumam, sim, sentirem-se tristes, mas frequentemente é uma melancolia diferente do normal. Todo mundo fica chateado quando coisas ruins acontecem, é uma reação absolutamente esperada. Mas na depressão é o contrário: os sentimentos negativos vêm primeiro e só depois surgem os motivos para eles. E até que a pessoa se dê conta que está doente ela já gastou muito tempo sofrendo, tentando compreender porque está tão desanimada sem motivos aparentes. É muito comum que os familiares condenem o paciente, por exemplo, dizendo que ele está assim porque só fica pensando nas coisas ruins do passado. É difícil compreender que normalmente o processo é inverso: por estar deprimida é que a pessoa fica remoendo pensamentos negativos.

Como se não bastasse, além de aumentar ocorrência das emoções negativas, como indisposição, insegurança, raiva e a própria tristeza, a depressão ainda reduz a capacidade de experimentar emoções positivas. Fica mais difícil sentir alegria, empolgar-se com algo, achar graça na vida e até mesmo desejar a própria melhora. O que aumenta o fardo dos pacientes, acusados de estarem assim porque não se ajudam, não se esforçam, não querem melhorar.

Se o problema fosse só o preconceito, já seria ruim suficiente – se não é fácil arranjar emprego, manter relacionamentos e tocar a vida sem depressão, imagine tentar superar ao mesmo tempo os sintomas da doença e as barreiras erguidas pela discriminação. Mas é pior: quanto maior a ignorância, maior o estigma e menor a chance de os pacientes procurarem ajuda.

Por isso é tão importante explicar – sempre, incansavelmente – que depressão não é fraqueza moral, não é falta de caráter, não é falta de ter o que fazer. É uma doença. Pode acontecer com qualquer um. Comigo. Com você. Escuto muito no consultórios pessoas dizendo: “Eu não acreditava em depressão, achava que era frescura, até acontecer comigo”. Uma pesquisa europeia publicada esse ano comprovou o poder da informação. Num esforço para reduzir o número de suicídios, uma campanha de conscientização sobre a depressão foi lançada em quatro países: Alemanha, Portugal, Irlanda e Hungria. Avaliando o grau de estigma e abertura para tratamento, os cientistas notaram claramente que ter contato com as informações fizerem diferença tanto reduzindo o estigma como aumentando a abertura das pessoas para buscar tratamento.

Ajude, portanto, a passar adiante informações sérias – e não mitos – sobre a depressão. E evite julgar os pacientes ou buscar em suas atitudes a causa do sofrimento. Porque o setembro amarelo – mês de conscientização e prevenção do suicídio – acabou. Mas a batalha contra o preconceito, essa ainda dura muito tempo.

 

Kohls E, Coppens E, Hug J, Wittevrongel E, Van Audenhove C, Koburger N, Arensman E, Székely A, Gusmão R, Hegerl U. Public attitudes toward depression and help-seeking: Impact of the OSPI-Europe depression awareness campaign in four European regions.J Affect Disord. 2017 Aug 1;217:252-259.  

 

***

Leitura mental

Lançado esse ano pela editora editora Plataforma 21 o romance Depois do azul trata do difícil tema do suicídio entre jovens – uma das faixas etárias em que o problema mais cresce. A autora, Élaine Turgeon, inspirou-se em sua própria experiência de enfrentamento dos sintomas depressivos e pensamentos suicidas na adolescência para contar a história de uma família lidando com o suicídio de uma das filhas. Mesclando diário, carta, narração em primeira e terceira pessoa, a autora compõe um mosaico, mostrando como esses casos são complexos e resistem a explicações absolutas. Voltado para o público jovem o livro foi lançado em parceria com o CVV (Centro de Valorização da Vida), justamente por sua capacidade de levantar a questão de forma delicada e empática, sem fazer da morte um espetáculo e, no fundo, trazendo uma mensagem de vida.