Alguns episódios dos Simpsons me fazem rir sozinho. Em um desses Homer transforma sem querer sua torradeira numa máquina do tempo, e voltando à pré-história causa alterações bizarras no presente ao interferir minimamente no passado. Quando espirra na cara de um dinossauro causando a grande extinção da espécie, por exemplo, volta ao presente e encontra sua família milionária, os filhos educadíssimos, a esposa linda; mas ao descobrir que ninguém sabe o que são rosquinhas, se desespera e volta para arrumar aquele estrago. A essa altura eu já estava rindo, mas assim que ele sai a Marge comenta com naturalidade que estava chovendo de novo, e a cena mostra milhares de rosquinhas caindo do céu. Gargalhadas.

Ok, pode não ser tão engraçado assim quando eu conto (assista e depois me conte – é o episódio “A casa do horror V”, da sexta temporada). Mas não foi por isso que lembrei do episódio, e sim porque ele mostra a grande penetração na cultura pop dos conceitos da teoria do caos, segundo a qual nos sistemas caóticos mudanças infinitesimais nas condições iniciais levam a enormes alterações mais tarde.

Acabo de ler um livrinho interessante sobre o tema, “Introducing Chaos – a graphic guide“. Claro que isso não me fez um especialista no tema, mas pela primeira vez percebi com clareza que essa abordagem poderá ajudar a compreender algumas questões centrais das neurociências.

Como surge a mente? Ou seja, nossos pensamentos, emoções, o amor, a saudade, a lembrança da fórmula de Báscara e a aflição ao ouvir o motorzinho do dentista, tudo isso pode ser explicado apenas pelos impulsos elétricos viajando entre os neurônios? Tendemos a achar que não, pois são subjetivos, experimentados como não-materiais; como seriam explicados apenas pela matéria bruta, pouco mais de um quilo de miolos? Por outro lado, se não forem causados pelo cérebro, o que os causa? (Alma e espírito não estão em questão, por serem matéria de fé e não de ciência). Se no cérebro material não causa a mente imaterial, surgiria ela literalmente “do nada”?

A teoria do caos e dos sistemas complexos oferece uma possibilidade de explicar como o cérebro limitado causa a mente ilimitada, utilizando conceitos como não-linearidade e feedback.

Nos sistemas lineares, quando você sabe o estado atual é possível dizer exatamente qual será o próximo estado. Mas em sistemas não-lineares, é muito difícil prever o que irá acontecer no momento seguinte, mesmo conhecendo o presente – justamente porque ele não é linear. Já o feedback faz com que os resultados de um sistemas influenciem em seu funcionamento – como na microfonia, quando o microfone capta o som que ele mesmo gera no alto-falante.

O cérebro é um sistema complexo, já que nossos 100 bilhões de neurônios geram 100 trilhões de sinapses, estima-se. São muitas variáveis independentes (os neurônios), mas conectadas (as sinapses), produzindo um sistema não-linear que influencia a si mesmo de diversas maneiras. A mente, ou a consciência, pode então ser entendida como o resultado que emerge desse sistema. Ela pode, sim, ter uma causa física, mas ao se configurar como um sistema caótico, torna-se imprevisível e aparentemente aleatória, onde modificações imperceptíveis num momento podem levar a transformações radicas em outro. Tudo isso confere a ela sua característica essencial de imaterialidade.

É claro que a compreensão profunda das implicações da teoria do caos para a psiquiatria depende de muito mais matemática do que eu sou capaz sequer de imaginar. Mas se mesmo sabendo tão pouco tive um insight importante (para mim, pelo menos) sobre a relação mente-cérebro, nem imagino o que pode acontecer quando os neurocientistas se apropriarem desse conhecimento. Acho que é imprevisível.