Que a droga é “coisa do capeta” qualquer um que tenha conversado com um dependente químico descobre rapidamente. A sensação de uma força incontrolável que leva o usuário a buscar a droga, mesmo contra sua vontade e ciente dos tremendos prejuízos que ela causa, é frequentemente vivenciada como uma espécie de possessão. No romance em que descreve as artimanhas do diabo, o prolífico escritor britânico C. S. Lewis coloca na boca de um experiente demônio a descrição do estratagema: “Um aumento considerável no desejo pela obtenção cada vez menor do prazer relacionado é a fórmula! Isto dá mais resultado, e é portanto o melhor estilo a adotarmos”.

Essa compulsão está por trás do fenômeno descrito na impressionante reportagem sobre a expansão do uso de crack pelo interior de São Paulo, publicada no Estadão desse domingo. “Por causa do prazer, agora pessoas de todas as classes usam. Temos em nossa obra médicos, dentistas, psiquiatras, muitos jovens que terminaram faculdade e também muitos favelados”, diz padre Haroldo, um dos primeiros a instituir o modelo de clínicas para dependentes no país.

A bem da verdade, é importante fazer uma distinção sutil, mas essencial: o que sustenta o vício no crack não é prazer, mas a compulsão. Tudo começa na década de 50 do século XX, quando dois cientistas americanos publicaram um trabalho pioneiro, no qual implantaram eletrodos numa área do cérebro de ratos, chamada região límbica, e os conectaram a uma alavanca que disparava cargas elétricas quando pressionada. Os pesquisadores acreditavam que as cobaias iriam correr daquele estímulo, mas se surpreenderam ao notar que os ratos passaram a preferir apertar aquela alavanca a qualquer outra coisa – chegando, em estudos posteriores, a morrer de fome em troca do choque cerebral. Isso acontecia porque ao longo da evolução os cérebros aprenderam marcar algumas atividades como sendo muito importantes, levando nossos ancestrais a ter forte impulso por repeti-las imediatamente, assim que possível. Comportamentos que aumentavam a chance de deixar descendentes, como alimentação e procriação, foram consequente selecionados – quem nasceu com maior tendência a repeti-los deixou mais descendentes, que herdaram a característica e assim por diante. O neurotransmissor que controla todo esse processo é a dopamina, e sua função é exatamente essa – levar à repetição. O prazer associado a tais atividades é um reforço extra, independente desse neurotransmissor.

E os ratinhos? Os eletrodos nos cérebros deles, descobriu-se, estimulavam diretamente a liberação dessa dopamina. Por isso apertá-las era tudo o que queriam.

Assim age a cocaína. Base para o crack, ela aumenta artificialmente a dopamina a níveis jamais experimentados por qualquer ser humano. Com isso o organismo entende que nada é mais importante do que aquilo, que passa a ser compulsivamente repetido. Em detrimento de comida, família, emprego ou o que for. Como Louis C. K., um dos mais renomados comediantes da atualidade, diz em seu stand up, ele recomenda aos filhos que não usem drogas, porque é uma coisa tão maravilhosa que vai acabar com a vida inteirinha deles.

Esse poder explica a expansão do crack reportada pelo interior de São Paulo – e de resto, pelo país como um todo. Seu poder de viciar é um dos mais intensos que conhecemos, levando por vezes os usuários à decrépita situação que se vê nas cracolândias Brasil afora. Mas é fundamental se atentar, como faz a reportagem, para o fato de que, por mais desumana que seja a situação dessas pessoas, eles não representam a maioria dos dependentes de crack. Pesquisas citadas pela matéria comprovam o que intuitivamente se percebe na prática clínica – a maioria dos usuários está em suas casas, vivendo aos trancos e barrancos, indo um dia e faltando dois ao trabalho. Eles já perderam o controle, na medida em que não conseguem deixar de usar a droga, mas sequer se aproximam do fundo do poço que é a vivência de rua.

Se o crack é ou não uma epidemia, se os usuários devem ou não ser internados, são questões sérias que merecem repostas baseadas em evidências(já discutidas nos links acima). Mas independente das respostas oferecidas, acreditar que uma política para as pequenas e grandes cracolândias é uma forma de enfrentar o a questão das drogas é tão ilusório como imaginar que um programa de alfabetização para a terceira idade resolve o problema do analfabetismo. Eles são a parcela menor e mais difícil de abordar, com menos chance de sucesso e menor expectativa de vida. Evidentemente que merecem todo o tratamento disponível, até por uma questão de humanidade, como também é óbvio que os idosos merecem a chance de ser alfabetizados. Mas se fingirmos que com isso estamos lidando com o problema como um todo, continuaremos nos enganando e, o que é pior, condenando mais pessoas a futuramente caírem vítimas desse vício.